Vários clientes do Banco Millennium Atlântico (BMA) queixam-se de excesso de burocracia e de dificuldades para obter crédito em Angola, transformando pedidos simples de financiamento numa sequência de documentos, justificações e exigências nem sempre claras. O caso do jornalista Raimundo Salvador, relatado pelo Imparcial Press, trouxe à tona uma situação que afecta outros clientes que procuram financiamento para adquirir bens ou desenvolver projectos.
O problema, segundo os relatos, não reside apenas na existência de critérios de concessão. A contestação centra-se na forma como esses critérios são apresentados e aplicados ao longo do processo, com pedidos sucessivos de documentação que prolongam a resposta do banco.
Documentos exigidos e o percurso do cliente
Na lista oficial do BMA para crédito pessoal constam:
- Carta de solicitação
- Documento de identificação
- Declaração da entidade empregadora com informação sobre vínculo laboral, tempo de serviço, salário e função
- Três últimos recibos de vencimento
Quando o salário não está domiciliado no banco, o cliente deve apresentar extractos bancários dos seis meses anteriores. Dependendo da operação, pode ainda ser exigido fiador ou avalista.
Para trabalhadores com salário fixo, o processo já envolve várias declarações e comprovativos. Para quem trabalha por conta própria ou tem rendimentos variáveis, a dificuldade aumenta, dada a necessidade de demonstrar documentalmente a capacidade financeira.
O problema não é exclusivo do BMA
As dificuldades não se limitam ao Millennium Atlântico. Outras instituições financeiras em Angola exigem documentação igualmente extensa.
No Banco de Fomento Angola (BFA), alguns produtos de crédito pessoal pedem comprovativos de rendimentos, declaração da entidade empregadora, domiciliação do salário, seguro de vida e, em certas operações, avalista.
No Banco Angolano de Investimentos (BAI), os pedidos incluem carta de solicitação, documento de identificação, comprovativo de rendimentos e confirmação de morada. Quando existe fiador, são exigidos documentos adicionais sobre a sua situação profissional e financeira.
A comparação mostra que o acesso ao crédito bancário em Angola está condicionado por uma estrutura de avaliação que privilegia a comprovação documental da capacidade financeira e a existência de garantias.
Uma das principais interrogações dos clientes é a seguinte: se os bancos conhecem antecipadamente os critérios, por que razão algumas exigências só surgem depois de iniciado o processo?
Quando o salário não chega
Ter emprego e receber salário regularmente não garante, por si só, a aprovação de um empréstimo. O banco avalia o rendimento disponível, os compromissos financeiros já assumidos, o histórico de crédito, a estabilidade profissional e as garantias apresentadas. O montante solicitado também pesa na decisão.
Para o cliente, esta avaliação torna-se difícil de compreender quando não existe explicação clara sobre a razão de uma recusa ou sobre a alteração das condições inicialmente apresentadas. É neste intervalo entre a expectativa do cliente e a decisão final do banco que surgem muitas das queixas.
A situação agrava-se quando o cliente não dispõe de avalista, não tem património para apresentar como garantia ou recebe rendimentos que não se enquadram facilmente nos modelos utilizados pelas instituições.
Crédito cresce, mas o acesso continua restrito
Dados do Banco Nacional de Angola mostram que o crédito à economia tem vindo a crescer. Em Agosto de 2026, o crédito à economia atingiu cerca de 7,3 biliões de kwanzas, um aumento de 11,7% em relação ao período homólogo.
O crescimento do volume de crédito, contudo, não significa que o acesso seja simples para todos os cidadãos. Entre o anúncio de produtos e a aprovação efectiva de um financiamento existe um processo de análise que pode excluir clientes que, apesar de terem rendimentos, não conseguem cumprir todas as condições exigidas.
A experiência de Raimundo Salvador não permite concluir que todos os clientes do BMA enfrentam os mesmos obstáculos. Serve, porém, como ponto de partida para uma discussão mais ampla sobre a relação entre bancos e consumidores e sobre o grau de transparência dos processos de concessão de crédito.
Especialista aponta falta de previsibilidade
A economista Evalina Ding’s, ouvida pela reportagem do Imparcial Press, considera que a dificuldade de acesso ao crédito em Angola revela não apenas a legítima preocupação dos bancos com o risco, mas também um sistema que pode colocar sobre o cliente uma parte excessiva do ónus do processo.
Na sua perspectiva, exigir garantias e comprovativos é normal. Já a multiplicação de documentos e procedimentos, sobretudo quando acompanhada de exigências que surgem durante a tramitação, pode transformar o crédito num mecanismo acessível sobretudo a quem já dispõe de maior estabilidade financeira e patrimonial.
“Não é razoável que o cliente entre num processo acreditando que cumpriu os requisitos e, ao longo da tramitação, descubra sucessivamente novas exigências. O banco tem o direito de proteger-se contra o incumprimento, mas o cliente também tem o direito de saber, desde o início, quais são as regras do jogo”, afirma Evalina Ding’s.
Para a especialista, quando os critérios não são suficientemente claros, a relação entre banco e cliente torna-se desequilibrada. Num país que precisa de ampliar o financiamento às famílias, aos empreendedores e às empresas, a falta de previsibilidade reduz a eficácia do sistema.
Evalina Ding’s defende maior transparência sobre os critérios de aprovação, redução de procedimentos redundantes e comunicação clara das razões de recusa. Facilitar o acesso ao crédito, sublinha, não significa eliminar a avaliação de risco, mas impedir que a burocracia se transforme numa barreira adicional ao financiamento da actividade económica.
Fonte: Imparcial Press
