O Presidente da República, João Lourenço, iniciou esta quinta-feira, 29 de Outubro, em Dar es Salaam, uma visita de Estado de dois dias à Tanzânia, a convite da Presidente Samia Suluhu Hassan. É a primeira visita de Estado de um Presidente angolano ao país em 47 anos, desde a de António Agostinho Neto, em 1979. Os dois Chefes de Estado assinaram acordos de cooperação, entre os quais um de ligação aérea, e anunciaram apoios mútuos em candidaturas internacionais, com o objectivo de dar conteúdo económico a décadas de relações históricas.
A visita começou por volta das 10 horas locais (8 horas em Angola) no Palácio Presidencial de Dar es Salaam, com a execução dos hinos dos dois países e 21 salvas de canhão. Seguiu-se um tête-à-tête entre os dois Presidentes e, depois, conversações alargadas entre as delegações.
“Evoluímos pouco” na cooperação económica
Na abertura do diálogo, os dois Chefes de Estado assinalaram os 47 anos sem uma visita de Estado angolana à Tanzânia. João Lourenço recordou o apoio tanzaniano aos movimentos de libertação da África Austral e afirmou que, apesar de 50 anos de relações formais, Angola e a Tanzânia evoluíram pouco na cooperação económica. “É isto que queremos corrigir”, disse.
Em declarações à imprensa, o Presidente angolano defendeu que os países africanos devem privilegiar a cooperação entre si e disse que Angola e a Tanzânia têm “sempre alguma coisa” a ganhar com o aprofundamento das relações.
Um comboio do Atlântico ao Índico
O chefe de estado angolano manifestou o interesse em ver o Corredor do Lobito completado com uma ligação ao TAZARA, a linha ferroviária que liga a Tanzânia à Zâmbia. Assim, o comboio uniria o Porto do Lobito ao Porto de Dar es Salaam. O Presidente sublinhou que o Corredor “só terá sentido” se concretizar essa ligação, passando pela RDC e pela Zâmbia.
O Chefe de Estado reiterou também o convite para que a Tanzânia se torne accionista da Refinaria do Lobito, em construção.
Acordos e áreas de cooperação
Segundo João Lourenço, foram assinados acordos e memorandos de entendimento em vários domínios. O Presidente destacou:
- Transporte aéreo: o acordo de ligação aérea entre as duas capitais ou outras cidades dos dois países, para facilitar o fluxo de passageiros e de homens de negócios. Os dois países vão estudar qual a companhia que o porá em prática.
- Espaço: Angola vai disponibilizar à Tanzânia os serviços do satélite ANGOSAT II, para aplicações como a agricultura e a meteorologia.
- Saúde: Angola quer aprender com a experiência tanzaniana na saúde materno-infantil e contratar profissionais de saúde tanzanianos, além de formar quadros angolanos em universidades da Tanzânia.
- Investimento privado: o Presidente garantiu que o ambiente de negócios angolano é hoje mais favorável ao investidor, citando a desburocratização e o combate à corrupção.
Apoios diplomáticos
A Presidente Samia Suluhu Hassan declarou que a Tanzânia vai apoiar a candidatura da engenheira angolana Josefa Sacko ao cargo de Director-Geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Em contrapartida, João Lourenço assegurou que Angola apoiará a candidatura da Tanzânia a membro não permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
O Chefe de Estado angolano voltou a defender a reforma do Conselho de Segurança, com a entrada de membros permanentes de África, da América Latina e da Ásia, com os mesmos direitos, incluindo o de veto.
Paz e segurança na região
Segundo João Lourenço, os dois Presidentes abordaram, “com alguma preocupação”, a situação de paz e segurança na região da SADC e dos Grandes Lagos. O Presidente angolano referiu o leste da RDC, que, a seu ver, tende a agravar-se, a crise humanitária no Sudão, Cabo Delgado, no norte de Moçambique, e a situação em Madagáscar, que classificou como de “inconstitucionalidade”.
Lourenço defendeu que a instabilidade afasta o investimento e aludiu também ao impacto dos conflitos internacionais no custo de vida e nos preços do petróleo e dos fertilizantes.
Encontro com a história
A última actividade do primeiro dia foi uma visita, acompanhado pela Primeira-Dama, ao Centro do Património da Libertação Africana, em Dar es Salaam. O espaço reúne peças museológicas, fotografias e documentos sobre o apoio da Tanzânia à luta contra o colonialismo e o apartheid, incluindo imagens das casas onde viveram líderes como Agostinho Neto, Samora Machel, Robert Mugabe e Sam Nujoma.
