O recente aumento do preço dos combustíveis, conjugado com a progressiva redução dos subsídios pelo Governo, está a provocar uma onda de reajustes nas tarifas do transporte público, afectando directamente o orçamento das famílias angolanas.
As associações representativas do sector — entre elas a Associação Nacional das Empresas de Transporte Rodoviário de Passageiros (Transcol), a Associação de Taxistas de Angola (ATA) e a Associação dos Transportes Rodoviários de Mercadorias de Angola (ATROMA) — manifestam preocupação crescente com os reflexos económicos tanto para as empresas operadoras quanto para os passageiros.
Autocarros Urbanos: Ajuste Tarifário Considerado Insuficiente
Em resposta ao aumento do gasóleo para 400 kwanzas por litro, a Agência Nacional dos Transportes Terrestres (ANTT) autorizou o reajuste da tarifa dos autocarros urbanos de 150 para 200 kwanzas (33%), enquanto os táxis colectivos passaram de 200 para 300 kwanzas.
Apesar do aumento, Carlos Carneiro, presidente da Transcol, afirma que o novo valor não cobre os custos operacionais. “Os gastos com combustível, manutenção, segurança social e outros encargos são elevados. Para ser sustentável, a tarifa teria de ser de 700 kwanzas, mas isso seria inviável para a população”, disse.
Carneiro defende que o Estado mantenha subsídios parciais ao sector, lembrando que os cidadãos já contribuem com impostos e merecem apoio. Actualmente, as empresas conseguem operar com apenas 25 a 30% da frota, face às dificuldades financeiras.
Táxis Colectivos: Aumento Decidido Sem Diálogo
No caso dos táxis colectivos, a ATA e a Associação Nova Aliança dos Taxistas de Angola (ANATA) mostraram-se surpreendidas com o anúncio do reajuste sem consulta prévia.
Lucas Miguel, vice-presidente da ATA, revelou que as associações preparavam uma paralisação para discutir o impacto do aumento do gasóleo, mas foram pegues pela decisão unilateral do Governo. “O ajuste só considerou o gasóleo, mas a gasolina também vai subir em breve, deixando-nos numa posição ainda mais difícil”, alertou.
Miguel considera que a tarifa ideal continuaria a ser de 200 kwanzas, antecipando os novos aumentos esperados. A falta de diálogo tem gerado descontentamento entre os motoristas, que temem um cenário ainda mais complicado nos próximos meses.
Transportes Expressos e de Mercadorias Também Reagem
Empresas de transporte expresso, como a Viação Cidrália e a Rosalina Express, também actualizaram os preços das suas viagens. Na rota Zango-Largo das Escolas, a Rosalina Express subiu de 800 para 900 kwanzas (12,5%), enquanto a Cidrália aumentou de 700 para 1.000 kwanzas (42,85%).
Segundo as operadoras, esses reajustes reflectem o aumento acumulado no preço do gasóleo, que subiu 50% desde Março, passando de 200 para 300 kwanzas, e agora para 400 kwanzas.
Já no transporte de mercadorias, António Gavião, líder da ATROMA, informou que novos aumentos estão previstos. “Abastecer um camião de 800 litros custava 240 mil kwanzas; agora, são 320 mil kwanzas. Este impacto obriga a ajustes nos fretes para garantir a sobrevivência do sector.”
Mototaxistas Também Ajustam Preços
Mesmo usando gasolina — cujo preço ainda não foi actualizado — os mototaxistas também estão alinhando os valores às novas tarifas do transporte colectivo.
Bento Rafael, presidente da Associação de Motoqueiros e Transportadores de Angola (AMOTRANG), justificou: “Se não ajustarmos os preços, ficamos ultrapassados. O custo de vida sobe para todos, independentemente do tipo de combustível usado.”
Impacto nos Orçamentos Familiares
Para muitos trabalhadores, especialmente aqueles que dependem do transporte público, o aumento das tarifas tem sido pesado no orçamento mensal.
Um residente de Viana, que ganha o salário mínimo nacional de 70 mil kwanzas e utiliza táxis colectivos para se deslocar ao centro de Luanda, gasta cerca de 1.800 kwanzas por dia (900 kwanzas por trajecto). Isso representa aproximadamente 39.600 kwanzas mensais, deixando apenas 30.400 kwanzas para outras despesas essenciais.
Perspectivas Futuras
Com a retirada gradual dos subsídios aos combustíveis programada até ao final de 2025, especialistas e representantes do sector esperam mais pressão sobre os preços dos transportes.
As associações apelam ao Governo que considere a manutenção de subsídios parciais, de forma a equilibrar os custos das empresas e proteger o poder de compra dos cidadãos.
Fonte: Valor Económico
