Os resultados dos exames nacionais do ensino secundário em Angola continuam a suscitar fortes controvérsias, opondo estudantes, pais e encarregados de educação ao Ministério da Educação (MED). As críticas centram-se na suposta falta de transparência e nas discrepâncias entre as notas atribuídas e o desempenho académico dos alunos ao longo do ano letivo.

De acordo com relatos de pais e estudantes, o sistema informático adotado pelo MED para a correção das provas terá sido responsável pela reprovação em massa, incluindo casos de alunos com bom historial académico que obtiveram notas negativas. Há ainda denúncias de aprovações indevidas para alunos que não realizaram as provas ou que acumularam negativas em disciplinas.

O Movimento dos Estudantes Angolanos (MEA) classificou o processo como um “verdadeiro fiasco”. Um levantamento preliminar realizado pela organização indica uma taxa de reprovação superior a 80%, significando que, em média, apenas dois em cada dez alunos da 12.ª classe obtiveram aprovação. Como exemplos, o MEA cita dados de instituições específicas: no Liceu 6.026, em Catete, dos 136 alunos avaliados, apenas oito foram aprovados; no Liceu 7022, na especialidade de Ciências Económicas e Jurídicas, nove em 123 passaram; em Ciências Físicas e Biológicas, três em 66; e em Artes Visuais, apenas um em 36.

Em resposta às irregularidades alegadas, o MEA propõe ao MED três alternativas: a repetição dos exames, a revisão das provas na presença dos estudantes ou, na ausência de comprovação de falhas, a aprovação automática de todos os envolvidos. Caso nenhuma medida seja adotada, a organização ameaça mobilizar protestos nacionais nas ruas.

Do lado do MED, uma fonte oficial, que falou sob condição de anonimato, defendeu a fiabilidade do sistema informático, implementado após estudos preparatórios desde 2019 e testes-piloto entre 2021 e 2023. A fonte reconhece, no entanto, possíveis falhas operacionais, como erros no preenchimento das provas por parte dos alunos – por exemplo, marcações múltiplas ou rasuras em questões de escolha múltipla, o que invalida respostas automaticamente.

Adicionalmente, problemas na gestão de dados pelas escolas foram apontados como causas potenciais de inconsistências, incluindo inscrições duplicadas de alunos e falhas na atualização de bases de dados. A fonte mencionou ainda possíveis equívocos na distribuição de folhas de prova personalizadas por vigilantes, o que poderia explicar aprovações ou reprovações erróneas.

Apesar das contestações, o MED descarta a anulação dos exames e anuncia um mecanismo de reclamações para correções pontuais. A fonte sublinhou que os resultados servem como diagnóstico do estado da educação angolana, reforçando a necessidade de melhorias no sistema.

Em declarações ao Jornal de Angola, a ministra da Educação, Luísa Grilo, fez um balanço “francamente positivo” da terceira fase dos exames nacionais, destacando o avanço na consolidação do Sistema Nacional de Avaliação Externa. Segundo a responsável, o processo promove maior rigor, transparência e equidade, fornecendo dados úteis para políticas educativas futuras.

Por outro lado, o presidente da Associação Nacional do Ensino Particular (ANEP), António Pacavira, lamentou a exclusão da sua organização na elaboração dos exames. Embora registe cerca de 90% de aprovações nos colégios privados, Pacavira questiona a qualidade das correções, citando casos de alunos premiados internacionalmente que obtiveram notas baixas. Ele apela a maior transparência, sugerindo a abertura do processo de correção ao escrutínio público.

O MEA, por sua vez, denuncia falhas técnicas nas máquinas de correção em algumas províncias e desleixo na operação do sistema. A organização critica ainda a falta de preparação dos alunos para provas de tal complexidade, agravada pela ausência de livros atualizados em muitas escolas e pela limitação dos testes-piloto a instituições selecionadas.

Como consequência do alto número de reprovações, os exames de recurso foram adiados, e o Ministério do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação (MESCTI) prorrogou o prazo de inscrições no ensino superior até 28 de agosto, para mitigar impactos nos estudantes.

Fonte: Novo Jornal

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