A recente visita da diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, a Angola foi marcada por um discurso de elogios ao Governo, apesar de o país enfrentar sérias dificuldades orçamentais nos próximos anos. A abordagem “diplomática” da líder da instituição está a gerar críticas entre economistas e académicos angolanos, que apontam uma desconexão entre os discursos públicos e a realidade económica do país.
A deslocação de três dias classificada pelo próprio FMI como uma “visita de cortesia” decorreu antes da reunião do G20 na África do Sul e antecede a chegada, já na próxima semana, de uma missão técnica do FMI ao abrigo do Artigo IV, mecanismo de avaliação periódica da economia dos países-membros. É nesse contexto que deverão surgir as críticas mais directas às políticas económicas de Luanda, especialmente no que diz respeito aos défices orçamentais projetados para 2025 e 2026, respectivamente de 3,3% (3,9 biliões de kwanzas) e 2,8% (3,8 biliões de kwanzas) do PIB.
Discurso “macio” contrasta com realidade económica
Enquanto os órgãos de comunicação pública angolanos destacavam manchetes como “FMI felicita Angola pelas reformas económicas” ou “Directora do FMI reafirma apoio às reformas em curso”, especialistas ouvidos pelo Expansão consideraram a postura de Georgieva excessivamente condescendente. “O discurso foi demasiado suave e evitou colocar o dedo na ferida”, afirma um economista universitário, que prefere o anonimato.
Em declarações à agência Lusa, a diretora do FMI elogiou os esforços de reforma desde 2017 e reforçou o apoio técnico à continuidade dessas políticas, especialmente no que toca aos subsídios aos combustíveis, cuja revisão foi adiada pelo Governo para 2028. “Mantenham o rumo. Não percam o ritmo”, aconselhou, numa clara recomendação para não abrandar as reformas estruturais.
Entre aplausos e preocupações reais
Apesar da cordialidade visível nas imagens divulgadas pelo Ministério das Finanças — que mostram reuniões de trabalho intercaladas com momentos de confraternização — há quem veja nesta abordagem uma estratégia de aprovação política. “Esta visita foi mais uma oportunidade para reforçar a imagem de estadista do Presidente João Lourenço, tanto interna como internacionalmente”, comenta o economista e gestor Álvaro Mendonça.
Já Heitor Carvalho, director do Centro de Estudos da Universidade Lusíada (Cinvestec), admite que o FMI opera com uma “lógica diplomática” que exige tacto nas relações com governos. “Mas há exageros. O maior elogio foi ao combate à corrupção algo que, de longe, parece convincente: filhos e genros de ex-presidentes presos. Mas será que isso representa a realidade complexa do país?”, questiona.
Artigo IV: o verdadeiro termómetro da economia angolana
Se a visita de cortesia evitou críticas públicas, a missão do Artigo IV, que chega a Luanda na próxima semana, deverá revelar as preocupações reais do FMI. Entre os pontos sob escrutínio estarão:
- A subestimação dos encargos com a dívida pública;
- A sobrestimação das receitas não petrolíferas;
- A manutenção de uma taxa de câmbio fixa há quase um ano;
- O risco de desaceleração das reformas estruturais.
Angola ainda tem uma dívida pendente de cerca de 3,6 mil milhões de dólares junto do FMI, de um total de 4,4 mil milhões concedidos entre 2019 e 2021 no âmbito de um programa de apoio financeiro que visava corrigir desequilíbrios económicos estruturais objectivos que agora parecem comprometidos pelos défices projectados.
Jovens, o “património” de Angola mas com perguntas controladas
Durante a visita, Georgieva participou também num encontro com estudantes e professores da Universidade Católica de Angola, onde destacou que “os jovens são o maior património do país”. No entanto, fontes presentes no evento revelaram que as perguntas foram previamente seleccionadas e o ambiente, cuidadosamente controlado, reforçando a percepção de que a narrativa oficial prevaleceu sobre o debate aberto.
Fonte: Jornal Expansão
