Os produtores agrícolas em Angola apelam ao Governo para que priorize o sector da agricultura e os camponeses, sob pena de os planos nacionais para a autossuficiência alimentar se transformarem num projecto falhado. Este alerta surge num contexto de aumento significativo das importações de milho, um dos cereais mais consumidos no país.

Nos primeiros 11 meses de 2023, Angola gastou cerca de 112,2 milhões de dólares com a importação de milho, o que representa um aumento de 48,80% em comparação com os 75,4 milhões de dólares despendidos no mesmo período do ano anterior. Estes dados, calculados pelo Valor Económico com base em informações da Administração Geral Tributária (AGT), referem-se às importações no âmbito do Programa de Apoio à Produção, Diversificação das Exportações e Substituição das Importações (Prodesi).

Em termos de volume, foram importadas aproximadamente 211,9 mil toneladas de milho, um crescimento de 82,32% face às 116,2 mil toneladas registadas no período homólogo.

Desafios na Produção Nacional de Milho

José dos Santos, presidente da Confederação das Associações de Camponeses e Cooperativas Agro-Pecuárias de Angola (Unaca), confirma o aumento das importações e aponta os elevados custos de produção, incluindo os preços dos fertilizantes, como principais obstáculos à produção em grande escala.

“Provavelmente, apenas algumas fazendas ligadas ao Grupo Carrinho conseguem produzir milho de forma significativa, porque para nós é uma tarefa complicada devido às dificuldades no campo, como os preços dos fertilizantes e outros factores inerentes à produção”, explica o representante da Unaca.

Entre os cereais produzidos em Angola, destacam-se o milho, o trigo e a soja, com maior ênfase no milho, que serve como principal alimento em muitas regiões do país e como ingrediente essencial para rações animais.

“A produção de milho depende necessariamente dos adubos. Hoje, um saco custa 90 mil kwanzas, o que é um sonho para nós, considerando que um saco não chega para tantas culturas de milho”, sublinha José dos Santos. Ele apela ao Ministério da Agricultura e Florestas para que dê à agricultura e aos agricultores a importância devida, evitando que os planos de autossuficiência terminem em fracasso.

Iniciativas Governamentais e Persistentes Dificuldades

Em Setembro de 2023, o Governo inaugurou, na província do Namibe, a fábrica Olombi, destinada à produção de fertilizantes e compostos agrícolas. A unidade, com capacidade anual superior a 100 mil toneladas, representa um investimento de 19 milhões de dólares e resulta de uma parceria entre o grupo empresarial China Agronegócios e a Chinahyway. A inauguração foi presidida pelo Ministro de Estado para a Coordenação Económica, José de Lima Massano.

Apesar destes avanços, José dos Santos garante que os fertilizantes continuam a ser uma grande dificuldade para os agricultores. A esta soma-se a burocracia no processo de regularização de terras, que leva muitos camponeses a desistirem e a transferirem as suas propriedades para estrangeiros com melhores condições financeiras. Estes, por sua vez, optam pela importação devido aos altos custos de produção local.

Recentemente, o Valor Económico verificou, em reportagem junto de unidades comercializadoras, um aumento nos preços dos fertilizantes entre 40% e 90% em relação ao ano passado.

Fonte: Valor Económico

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