O Instituto Superior de Administração e Finanças (ISAF), instituição privada de ensino superior sediada em Luanda, já formou 638 licenciados entre 2017 e 2025 nas áreas de Informática de Gestão Financeira, Gestão Bancária e de Seguros e Contabilidade e Finanças. O ano lectivo 2024–2025 registou o maior número de graduados até à data, com 283 licenciados lançados no mercado de trabalho — o que representa uma média anual de 128 novos profissionais desde 2021.
Fundado em 2017, o ISAF realizou a sua primeira cerimónia de outorga em 2020–2021, com 30 formandos. Desde então, tem vindo a expandir a sua capacidade formativa: 63 licenciados em 2021–2022, 88 em 2022–2023 e 174 em 2023–2024. A instituição é vocacionada para a formação de quadros técnicos e gestores para os sectores financeiro, bancário, empresarial e tecnológico, alinhando-se às necessidades do desenvolvimento socioeconómico de Angola.
Ausência de dados oficiais há três anos preocupa especialistas
Apesar do crescimento visível de instituições como o ISAF, o país enfrenta um vazio estatístico crítico no ensino superior. O Ministério do Ensino Superior, Ciência, Tecnologia e Inovação (MESCTI) não publica o Anuário Estatístico do Ensino Superior desde 2022, documento essencial para compreender a evolução do sistema universitário angolano.
Segundo fonte do MESCTI, o atraso deve-se, em parte, à entrega tardia de dados pelas Instituições de Ensino Superior (IES) — públicas e privadas. Dos 106 estabelecimentos de ensino superior legalmente reconhecidos, apenas 40% a 50% cumprem os prazos de submissão, que ocorrem entre Outubro e Dezembro de cada ano.
Lukonda Bau Nzuzi, director do Gabinete de Estudos, Planeamento e Estatísticas (GEPE) do MESCTI, confirmou ao Expansão que os anuários relativos aos anos lectivos 2022–2023 e 2023–2024 já estão concluídos e aguardam validação pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). A previsão é que todos os documentos em atraso sejam divulgados em Janeiro de 2026, incluindo os dados parciais de 2024–2025.
Falta de transparência compromete políticas públicas e competitividade
A ausência prolongada de estatísticas oficiais que já se repetiu entre 2020 e 2022 dificulta a formulação de políticas educativas, a avaliação do desempenho académico e o planeamento de investimentos no capital humano. Para Heitor Carvalho, director do Centro de Investigação Económica da Universidade Lusíada Angola (CINVESTEC), a solução passa por descentralizar a recolha de dados.
“É mau que não haja essa divulgação dos dados estatísticos a tempo. O ideal seria que o INE realizasse inquéritos trimestrais, garantindo maior rigor e independência. Quem entende de estatística deve liderar a recolha de informação relevante”, defende Carvalho.
A situação tem consequências internacionais. No Índice Global de Competitividade de Talentos (IGCT) 2025, elaborado pelo INSEAD e pelo Instituto Portulans, Angola ocupa a 126.ª posição entre 135 países, com apenas 24,35 pontos (escala de 0 a 100). O país é especialmente penalizado nos indicadores de ensino superior:
- Posição 118.ª no acesso à formação universitária (pontuação: 4,5);
- 79.º lugar no ranking das universidades, com 0,0 pontos;
- Ausência total de dados sobre atracção de estudantes internacionais e investimento no ensino superior.
Especialistas alertam para riscos de um ensino desarticulado
Em meio ao silêncio estatístico, vozes da academia reforçam a urgência de um ensino superior mais alinhado com as exigências do século XXI. O professor Mário Filomeno lembra que “num país em crescimento como Angola, a ciência deve estar ao serviço do povo, da justiça e do desenvolvimento sustentável”. Já Marcos Dala, também docente, sublinha que “ou se forma um falante consciente, crítico e competente, ou se perpetua um ensino superficial da língua portuguesa em Angola”.
Fonte: Jornal Expansão
