O setor segurador angolano registou um crescimento de 12% nos investimentos em 2024, totalizando 412,571 milhões de kwanzas, segundo dados divulgados pela Agência Angolana de Regulação e Supervisão de Seguros (ARSEG) e analisados pelo Expansão. Apesar do reforço da capacidade financeira das seguradoras, o perfil de aplicação dos recursos permanece pouco diversificado, refletindo as limitações estruturais do sistema financeiro nacional.

Mais de 80% dos investimentos do setor continuam concentrados em três categorias: depósitos a prazo (31%), títulos do Estado (30%) e imóveis (21%). Os títulos de rendimento variável como ações cotadas em bolsa representam apenas 18% da carteira, um indicativo da fraca profundidade do mercado de capitais angolano.

Títulos do Estado ganham protagonismo

O segmento que mais cresceu entre 2023 e 2024 foi o de títulos do Estado, cujo volume de investimento aumentou 27%, passando de 95,567 milhões para 121,277 milhões de kwanzas. A opção por este tipo de ativo não se justifica apenas pela rentabilidade, mas também pela segurança jurídica, previsibilidade de prazos e alinhamento com as obrigações legais das seguradoras.

“Quando um segurador decide investir, avalia sempre a relação entre risco e rentabilidade, com foco nas responsabilidades perante os segurados”, explica Cristina do Nascimento, especialista em seguros. “Os títulos soberanos continuam a oferecer uma combinação rara no contexto angolano: liquidez, segurança e juros atrativos.”

Depósitos a prazo respondem a exigências de liquidez

A significativa fatia destinada a depósitos a prazo está diretamente ligada à natureza do mercado segurador em Angola, dominado pelos ramos de Não Vida, cujas apólices têm vigência anual. “Essas seguradoras precisam de disponibilidades financeiras para honrar sinistros rapidamente”, observa a representante da Nossa Seguros. Isso limita a capacidade de aplicar recursos em ativos de longo prazo, ao contrário do que ocorre em mercados mais maduros, onde o ramo Vida impulsiona investimentos de longo prazo.

Mercado de capitais ainda engatinha

Para o analista de mercado Jorge Mendes, a concentração dos investimentos não é fruto apenas de uma postura conservadora, mas sim da estrutura limitada do sistema financeiro angolano. “Não se trata de falta de vontade de diversificar, mas da inexistência de instrumentos financeiros suficientes e atrativos que respeitem os critérios de solvência e liquidez exigidos pelo regulador”, afirma.

Embora o Governo tenha promovido iniciativas para dinamizar a Bolsa de Valores de Angola como a admissão de novas empresas à cotação, o mercado ainda carece de profundidade, liquidez e variedade de produtos para atrair investidores institucionais, como as seguradoras.

Resseguradora Nacional pode impulsionar mudanças

Uma luz no horizonte é a criação da Resseguradora Nacional, que deverá reter capital no país e estimular o desenvolvimento de novos produtos financeiros. Operadores do setor acreditam que essa entidade poderá, a médio e longo prazos, contribuir para a sofisticação do mercado de capitais e ampliar as opções de investimento para as seguradoras.

Enquanto isso, o setor seguirá ancorado em ativos de baixo risco, com os títulos do Estado e os depósitos a prazo a assegurar estabilidade num ambiente ainda marcado por incertezas macroeconómicas e escassez de alternativas de investimento.

Fonte: Jornal Expansão 

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *