Passadas 48 horas desde a reunião do Bureau Político (BP) do MPLA, a militante Graciete Edine Dombolo Chivaca Sungua ainda não assinou a declaração formal que ateste a sua desistência da corrida ao cargo de Secretária-Geral da Organização da Mulher Angolana (OMA). A recusa, apesar de ter aceitado publicamente não desafiar a decisão do líder do partido, João Lourenço, expõe uma crise interna que ameaça a imagem de unidade do partido no período pré-congressual.
Segundo fontes internas, a direção do MPLA havia encarregado a vice-presidente Mara Quiosa de abordar Graciete em privado, com o objetivo de convencê-la a retirar-se voluntariamente da disputa. Contudo, a estratégia falhou: a candidata manteve-se firme, levando a situação a escalar durante a reunião do BP. Diante do impasse, o Presidente João Lourenço terá manifestado desagrado aos dirigentes Mara Quiosa e Paulo Pombolo por não terem resolvido o assunto antes da sessão plenária.
Apesar das pressões e até de ameaças de represálias, Graciete Sungua negou-se a subscrever qualquer documento de renúncia formal. A sua única resposta pública veio pelas redes sociais, onde agradeceu o apoio recebido:
“Agradeço do fundo do meu coração, a todas e a todos pela força, pela coragem e pelo apoio sincero que me deram no momento da apresentação da minha candidatura ao cargo de Secretária-Geral da OMA e nos dias subsequentes. Cada palavra de incentivo e cada gesto de solidariedade marcaram profundamente este percurso.”
Na mesma mensagem, ela expressou votos de sucesso para o 8.º Congresso da OMA, desejando que o evento “continue a ser uma verdadeira festa de união e afirmação das mulheres angolanas”, e concluiu com um apelo à coesão:
“Continuamos juntas, pela OMA, pelo MPLA e por Angola.”
Suspeitas políticas motivam pressão
Fontes próximas ao partido afirmam que a pressão sobre Graciete Sungua decorreu de suspeitas de que ela poderia mobilizar as bases da OMA a apoiar o pré-candidato Francisco Higino Lopes Carneiro no próximo congresso do MPLA, marcado para 2026. Essa possibilidade teria sido vista como uma ameaça à estabilidade da liderança partidária.
O gabinete técnico do MPLA, muitas vezes referido como a “célula do SINSE” na sede nacional, também foi criticado internamente por não antecipar o desenrolar tenso da reunião do BP, considerado um erro de gestão política.
MPLA insiste em narrativa de “decisão voluntária”
Em resposta às especulações, o porta-voz do MPLA, Esteves Hilário, reiterou que a saída de Graciete Sungua foi voluntária e alinhada com os princípios da democracia interna do partido. Segundo ele, o Bureau Político validou a desistência sem obstáculos, e o processo eleitoral segue normalmente com uma única candidata: Emília Carlota Dias.
No entanto, a ausência de assinatura formal da renúncia mantém viva a controvérsia, alimentando debates nas redes sociais e entre analistas políticos sobre a transparência dos processos internos do MPLA e o espaço real para pluralidade de vozes dentro da organização.
Enquanto isso, a OMA uma das estruturas mais influentes do partido — prepara-se para o seu congresso num clima de tensão latente, com olhos postos na capacidade da nova liderança de restaurar a confiança das mulheres militantes.
Fonte: Club-K
