Grupo Carrinho, conglomerado empresarial com raízes em Benguela e crescente influência no sector financeiro angolano, está novamente no centro das atenções do mercado de capitais. Fontes próximas ao processo revelaram ao Valor Económico que o grupo estaria a preparar uma estratégia para entrar na estrutura accionista da Unitel, maior operadora de telecomunicações do país, à medida que avança o processo de privatização da empresa por via da Bolsa de Dívida e Valores de Angola (Bodiva).
Apesar das especulações, fontes internas ao próprio conglomerado desmentiram veementemente qualquer intenção formal, classificando como “não economicamente viável” uma aquisição directa ou indirecta da operadora, dada a dimensão financeira da operação.
Estratégia semelhante à do BFA?
A suspeita baseia-se numa manobra já bem-sucedida pelo grupo em 2024: a entrada qualificada no Banco Financeiro Africano (BFA), onde hoje detém 7,61% do capital. Na altura, o Grupo Carrinho utilizou uma engenharia accionista envolvendo empresas ligadas ao seu braço financeiro a Congolian e o apoio da corretora Prospectum Capital, entidade criada em 2023 e fortemente associada ao grupo.
Segundo apurou esta redacção, a mesma estrutura poderia estar a ser replicada agora em torno da Unitel. A hipótese passaria pela aquisição de ações em bolsa, através de sociedades e indivíduos estratégicos, num movimento descentralizado mas coordenado. Entre as instituições citadas nestas movimentações estão o BCI e o Banco Keve, este último com forte vinculação ao Grupo Carrinho.
“Não é economicamente sensato comprar a Unitel para controlar o BFA”, afirmou uma fonte de alto nível dentro do conglomerado, referindo-se à relação cruzada entre as duas empresas: a Unitel detém actualmente 36,9% do capital do BFA.
Unitel sob olho do Estado e do mercado
A Unitel, com 19,3 milhões de clientes e uma quota de mercado de 73,09%, é um activo estratégico. Em 2022, o Estado angolano assumiu 100% do seu capital após a nacionalização das participações da Vidatel e da GENI decisão controversa que ainda gera debates jurídicos sobre o direito de preferência previsto em acordos parasociais.
Em agosto de 2024, o Presidente da República autorizou a privatização de 15% do capital da Unitel através de uma Oferta Pública Inicial (IPO), prevista para o segundo semestre de 2026. A operação deverá atrair múltiplos interessados, incluindo grupos com ligações ao tecido político-económico nacional.
Se concretizada, a entrada do Grupo Carrinho na Unitel permitir-lhe-ia reforçar indiretamente a sua posição no BFA, consolidando assim uma rede de influência no sistema financeiro e de telecomunicações.
BNA ainda não aprova entrada no Keve
Enquanto isso, o Banco Nacional de Angola (BNA) mantém-se cauteloso. Até à data, não aprovou formalmente a entrada do Grupo Carrinho na estrutura accionista do Banco Keve, onde o grupo detém cerca de 70% do capital. Apesar do aval prévio da Autoridade Reguladora da Concorrência (ARC), emitido há nove meses, o regulador principal ainda não se pronunciou.
Questionado no final de 2025, o BNA não respondeu aos pedidos de esclarecimento do Valor Económico. Entretanto, o grupo continua ligado ao banco e estaria a estudar formas de dispersar as suas participações nas instituições financeiras, evitando assim riscos de concentração contrários à Lei da Concorrência.
Prospectum Capital: a corretora em ascensão
A Prospectum Capital tem ganho protagonismo no mercado angolano. Em 2024, foi a oitava corretora com maior volume transacionado (278,022 mil milhões de kwanzas). Já em 2025, durante o processo de privatização do BFA, saltou para a quarta posição, com 701,290 mil milhões de kwanzas movimentados um crescimento que coincide com o aumento da atividade accionista do Grupo Carrinho.
O investimento no BFA terá rondado os 56,12 mil milhões de kwanzas, com a aquisição de 1.133.747 ações a um preço médio de 49.500 kwanzas por título. Fontes indicam que a posição pode ainda ser reforçada, dado que a corretora continua a operar títulos do banco em bolsa.
Fonte: Jornal Valor Económico
