O Ministério da Indústria e Comércio autorizou a importação de 250 mil toneladas de cimento até Junho para mitigar a escassez no mercado nacional, provocada pela paralisação quase total da cimenteira CIF a maior unidade produtora do País, privatizada em 2024. O grupo Anseba, de origem eritreia e actual gestor da rede de hipermercados Kero, foi o único concorrente no concurso público lançado em Janeiro e ficará responsável pela entrada do produto em dois lotes: 150 mil toneladas até 31 de Março e 100 mil até 30 de Junho.
A medida surge como resposta directa ao disparo do preço do saco de cimento de 50 quilos, que em Dezembro ultrapassou os 10 mil kwanzas no mercado informal  valor que já recuou para uma média entre 8.500 e 9.000 Kz em pontos de venda de Luanda, segundo comerciantes do mercado da Madeira e da zona do Prenda. Apesar da ligeira descida, especialistas alertam que a situação estrutural do sector permanece frágil: a capacidade produtiva instalada em Angola, de 8,5 milhões de toneladas/ano, está severamente condicionada pela inactividade da CIF, na província do Ícolo e Bengo, cuja capacidade nominal é de 3,6 milhões de toneladas.
“Aqui o preço mais baixo é 8.500 Kz. Mas a maioria está a vender a nove mil”, confirmou uma comerciante da praça do Prenda ao Expansão, sublinhando que a variação depende da localização e da cadeia de distribuição. Curiosamente, as fábricas activas mantêm os mesmos níveis de produção e tabela de preços desde Dezembro, o que sugere que a recente queda nos pontos de venda reflecte mais uma sazonalidade pós-festas com menor procura em Janeiro — do que uma melhoria estrutural na oferta.
O concurso vencido pelo Anseba, que em 2024 assinou ainda um acordo de industrialização de produtos da cesta básica com o Grupo Carrinho, insere-se num quadro regulatório em revisão. Em 2014, Angola proibiu a importação de cimento ao considerar que a produção interna satisfazia a procura. Contudo, com a degradação da capacidade fabril, o Executivo foi obrigado a abrir excepções decisão que a Autoridade Reguladora da Concorrência (ARC) já classificou como “limitadora da liberdade das empresas”. No seu Relatório de 2023 sobre o subsector da construção civil, a ARC defendeu que “não é recomendável que existam imposições dessa natureza em termos de aquisição de cimento e clínquer”, alertando para distorções concorrenciais provocadas por decretos que restringem canais de abastecimento.
Fonte: Jornal Expansão 

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