O Estado angolano arrecadou 28,2 mil milhões de kwanzas em impostos sobre jogos em 2025 — um crescimento de 59% face ao ano anterior — impulsionado pelo ressurgimento das apostas desportivas em boletim, popularmente conhecidas como “fichas”, cujas receitas fiscais dispararam 176%. O dado, que contrasta com a tendência global de migração para plataformas digitais, revela um mercado em expansão, mas também acende o debate sobre os riscos sociais associados à actividade num país com elevados índices de desemprego jovem.
Segundo cálculos do Expansão com base em folhas de informação rápida do Instituto de Supervisão de Jogos (ISJ), do total arrecadado, 27,8 mil milhões Kz provieram directamente da exploração dos jogos e dos prémios pagos, enquanto 412,9 milhões Kz corresponderam a receitas parafiscais multas, taxas de supervisão e outros emolumentos.
O segmento de base territorial as tradicionais “fichas” recuperou a liderança do mercado após ter sido ultrapassado pelas apostas online em 2024. Em 2025, gerou 16,1 mil milhões Kz em receitas fiscais, representando 58% do total. Paralelamente, as apostas digitais recuaram 22%, fixando-se em 7,0 mil milhões Kz um movimento que especialistas associam à fraca penetração da internet no país, ainda limitada a 36% da população.
Os casinos (jogos de fortuna ou azar) também registaram desempenho expressivo, com crescimento de 154% para 4,7 mil milhões Kz, respondendo por 16% da arrecadação total.
O fenómeno ganha contornos preocupantes quando analisado à luz da realidade socioeconómica angolana. Com 49% da população até aos 24 anos desempregada, 47% na informalidade e apenas 4% com emprego formal, muitos jovens encaram as apostas como via de acesso a rendimentos extraordinários.
“Não se trata apenas de desempregados. Até jovens com emprego formal, mas salários baixos, recorrem às apostas para fazer face às despesas mensais”, alerta o sociólogo Nkanga Gomes. Segundo o especialista, os riscos vão além do financeiro: “O vício pode levar a comportamentos criminosos — furto, roubo para sustentar a dependência, gerando instabilidade familiar e conflitos no seio dos lares.”
Para Nkanga Gomes, embora o Estado tenha legitimidade para alargar fontes de receita fiscal, deve simultaneamente criar políticas correctivas. “As empresas exploradoras de jogos devem ser obrigadas, no âmbito das suas acções sociais, a investir em centros de saúde mental e outras infra-estruturas compensatórias”, defende.
Composição das receitas
Em 2025, as 24 operadoras licenciadas pagaram 14,5 mil milhões Kz em impostos sobre as receitas brutas e capital em giro mais 2,9 mil milhões Kz (+25%) que em 2024. Já os impostos deduzidos directamente dos prémios aos apostadores totalizaram 13,1 mil milhões Kz, um aumento de 236% face ao período anterior, indicando maior volume de prémios distribuídos.
Fonte: Jornal Expansão
