Proveniente da Guiné-Conacri, onde nasceu, Tounkara Saidou é neto do primeiro Presidente da Guiné-Conacri, Ahmed Sékou Touré e vive em Angola desde 2005. À frente da Associação dos Sucateiros Unidos de Angola (ASUA), o empresário defende a reabertura organizada das sucateiras legalizadas e a criação de um centro único de compra e venda de metais ferrosos e não ferrosos, para reforçar o controlo da actividade e combater a vandalização de bens públicos. Ahmed Sékou manifesta ainda preocupação com as dificuldades enfrentadas por cidadãos da África Ocidental na regularização da situação migratória, atribuindo parte dos constrangimentos ao SME.
Quase 10 meses após a entrada em vigor do Decreto Executivo n.º 7/26, que suspendeu a actividade das sucateiras, qual é a situação actual desta actividade? Apoiámos a medida de suspensão, devido à vandalização de bens públicos e à desorganização que se verificava no sector. Fomos, inclusive, a primeira associação do país a organizar uma marcha contra a vandalização, com o apoio do Governo e da Polícia Nacional, numa altura em que era frequente vermos notícias sobre a destruição de bens públicos.
De que forma a suspensão afectou a actividade?
Os operadores estão frustrados. Trata-se de um negócio e, com a actividade parada e uma grande quantidade de materiais em stock, a situação tornou-se difícil. Mui-tos empregos directos e indirec-tos foram perdidos, incluindo os de pessoas idosas que recolhem esses materiais para conseguirem algum sustento.
Já mantiveram contactos com o Governo para permitir, pelo menos, a reabertura das sucateiras legalizadas?
Há cerca de três meses, tivemos uma audiência com o Governo Provincial de Luanda, na qual solicitámos autorização para que os operadores com materiais em stock nos estaleiros pudessem vendê-los e retirar os materiais dos recintos. A maior parte desses espaços é arrendada. Mesmo sem facturação, os operadores continuam obrigados a pagar rendas, suportar outras despesas correntes e sustentar as respectivas famílias.
Qual foi a resposta do Governo Provincial de Luanda? A resposta foi positiva, mas apenas a nível da província de Luanda. Foi-nos concedido um prazo de 60 dias para retirar os materiais dos estaleiros, sob supervisão de uma comissão criada pelo Governo Provincial, com a participação da Polícia Nacional e de um representante da associação. Caso fosse encontrado material proveniente de vandalização, o operador seria imediatamente detido.
O prazo concedido chegou a ser cumprido?
O processo foi interrompido porque um grupo de operadores decidiu continuar a receber materiais, em vez de se limitar à venda do stock existente. Foram identificados pela Polícia, detidos e viram os materiais e as balanças apreendidos. Desde então, aguardamos o levantamento da suspensão, mas defendemos que a reabertura seja organizada e abranja os operadores legalizados.
Apesar de ser visto por muitos como um negócio de “lixo”, a maior dimensão pode exigir cerca de um milhão de kwanzas.
Segundo um relatório de 2025 da Agência Nacional de Resíduos, Angola produz cerca de 8,3 milhões de toneladas de resíduos sólidos por ano, mas apenas 24% são recolhidos. A situação poderá agravar-se com a suspensão das sucateiras?
A suspensão também poderá contribuir para o agravamento da situação, porque uma parte considerável dos resíduos era recolhida por catadores, que depois os vendiam às casas de pesagem. Isso inclui pape-lão, plástico e metais.
A produção das fábricas também está a diminuir, porque já não recebem a mesma quantidade de matérias-primas que anteriormente era fornecida pelas sucateiras. Podem recorrer a outros países, mas isso representa custos mais elevados. Tudo isso acaba por influenciar os preços dos mate-riais de construção.
Apesar da suspensão geral da actividade das casas de pesagem, continuam a surgir relatos de vandalização de bens públicos. Como interpreta essa situação?
O que nos preocupa é que a vandalização continua. Isso leva-nos a questionar se os sucateiros são realmente os únicos responsáveis por essas práticas, uma vez que os estaleiros estão fechados. Existe um grupo que continua a vandalizar bens públicos e acaba por fazer com que todos os opera-dores paguem pelas mesmas consequências.
Que solução propõe a associação para combater a vandalização e organizar o sector?
Queremos criar um centro único de compra e venda desses materiais. Estimamos que cerca de 85% dos sucateiros legalizados do país façam parte da associação, que tem representantes em todas as províncias. Pretendemos, por isso, criar um centro de compras para os nos-sos associados, aqui em Luanda, por exemplo.
Fonte: Valor Economico
