Corrida a uma agência que valoriza o sector camponês, fundamental na cruzada contra a fome no mundo, acontece sem sinais de mecanização nas cooperativas e associações. Agarrada à inovação, candidata angolana terá de ‘esconder’ ao mundo cenário de estagnação no Índice Global da Fome. Entidades externas reafirmam vontade de financiar, mas áreas com culturas representam apenas 17 por cento dos 35 milhões de hectares aráveis.
Angola acena com a inovação e tecnologia ao serviço da agricultura como um de vários trunfos para chegar à liderança da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), quando o sector que mais produz, com 6,4 milhões de agentes divididos por três milhões e 242 mil explorações agrícolas, continua amarrado ao trabalho manual através de enxadas e catanas.
A falta de soluções tecnológicas na agricultura familiar, dependente das chuvas por força da escassez de sistemas de irrigação, constitui, segundo especialistas consultados pelo Novo Jornal, um factor de estrangulamento, à semelhança das limitações no acesso ao crédito e a meios de produção.
Entre analistas, há consenso quando se diz que a candidata de Angola, a embaixadora e agrónoma Josefa Sacko, reúne aceitação nos corredores das Nações Unidas, mas pode, em sentido contrário, encontrar adversários na realidade do seu próprio País.
Se a agricultura familiar, tida como fundamental para o combate à fome no mundo, representa mais de 90 por cento das 608 milhões de explorações agrícolas, como reforçou o Seminário Internacional realizado em 2025 no Brasil, facilmente se percebe que a situação interna está longe do cartão de visita que muita falta faz à candidatura da diplomata angolana.
Em Angola, segundo dados oficiais, os produtores familiares proporcionam, justamente, 90 por cento da produção total, estimada em seis milhões de toneladas de bens diversos, com destaque para hortícolas, leguminosas e alguns cereais.
Defensor desta franja, o agente comunitário Abílio Sanjaia junta a estes estrangulamentos dificuldades no escoamento da produção como consequência do péssimo estado das estradas. Aliás, informações disponíveis indicam que grande parte da produção (acima de 40 por cento) apodrece nos campos por falta de escoamento para as superfícies comerciais.
O empresário Vitorino Sousa Marques, detentor de campos no município do Dombe Grande, em Benguela, não sente as dificuldades dos agentes da agricultura familiar, mas não se livra das condicionantes no domínio do escoamento. “Continua a haver banana, manga e abacaxi por excesso, chegámos a descartar frutas deterioradas”, avisa Sousa Marques, ao assinalar que o desperdício reflecte igualmente a inexistência de uma indústria transformadora pujante.
A ‘praga’ da insegurança alimentar e as terras desperdiçadas
Apoiado pela União Africana e SADC, o País avança para a liderança da FAO, concorrendo com a Irlanda, Espanha, Itália e Turquia, sem ‘progressos consistentes’ no Índice Global da Fome desde 2018. Está, diz o relatório do IGF, entre os 21 Estados com o pior desempenho a nível mundial.
São dados, conforme a crítica, pouco abonatórios para a candidatura, aos quais se juntam as centenas de famílias afectadas pela insegurança alimentar, principalmente a severa, correspondente ao patamar mais grave da fome.
Estes excertos dos problemas em Angola são os mesmos que, num plano global, levam Josefa Sacko a enfrentar uma concorrência com argumentos mais sólidos e convincentes a julgar pela realidade nos seus Países.
A angolana, antiga secretária-geral da Organização Africana do Café, considera que a erradicação da fome passa por investir forte na agricultura, com jovens nas decisões. Reforça que é necessário converter o conhecimento e os programas em acções concretas com impacto nas populações e nos camponeses.
Quanto ao continente africano, o mais afectado pela insegurança alimentar, a candidata ao cargo de secretária-geral da FAO, cuja eleição ocorre em Agosto de 2027, aponta como prioridade a promoção de um sistema agro-alimentar resiliente.
Descentralização e capacitação dos escritórios regionais, sub-regionais e nacionais, em obediência a reformas em todas as agências da ONU, numa perspectiva de melhoramento das estatísticas, são outros trunfos da candidatura angolana.
Internamente, quando se analisa a necessidade de aumento das áreas de cultivo, salta à vista a existência de 35 milhões de hectares de terras aráveis, sendo que apenas 6,2 milhões (17,7% do total) são explorados.
No domínio da agricultura empresarial, sector com cinco mil explorações agrícolas, como actualizou o PR no discurso sobre o Estado da Nação, o Executivo perdeu largos milhões de dólares com investimentos em fazendas que, hoje inoperantes, acabam na esfera da privatização.
Quanto à relação com instituições financeiras internacionais, destaque para o portfólio do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), com USD 222 milhões destinados à transformação rural. Mulheres e jovens, que representam o foco de Josefa Sacko, são a franja prioritária de uma iniciativa que deverá arrancar com o café na província do Bié.
Os Bancos Mundial e Africano de Desenvolvimento já fizeram saber que caberá ao Governo angolano aproximar os produtores dos financiamentos que têm à disposição.
Escassez de soluções tecnológicas que tornam a agricultura dependente das chuvas no País pode pesar na indicação de Sacko
Fonte: Novo Jornal
