As seguradoras tentam avançar para o seguro agrícola sem o apoio do Estado, adoptando o seguro paramétrico, mas o pouco conhecimento sobre os produtos tem criado inúmeras dúvidas no seio dos agricultores que clamam por mais informação.

A narrativa para a implementação do seguro agrícola vem de 2018, quando a Agência Angolana de Regulação e Supervisão de Seguros (ARSEG) lançou o programa-piloto do seguro, sob coordenação da Ensa, mas que ficou parado no tempo por falta da subvenção do Estado e, de lá para cá, as seguradoras têm tentado implementar o seguro, mas encontram outras barreiras além da subvenção: o pouco conhecimento por parte dos agricultores.

Numa altura em que os riscos estão a aumentar, com as alterações climáticas que geram mais pragas e incêndios, os roubos e as más práticas de cultivo, entre outros riscos, os agricultores reconhecem a necessidade de subscreverem uma apólice, mas apontam que têm pouco conhecimento do produto.

“Tanto na agricultura familiar, quanto industrial o seguro agrícola ainda não é uma realidade, porque é um assunto novo. São abordagens que a princípio não tiveram grandes articulações com a classe empresarial e como não estão acostumados vai levar tempo para que a classe não encare como mais um custo na estrutura”, explica Wanderley Ribeiro.

O presidente da Associação Agro-pecuária de Angola (AAPA) aponta que o sector empresarial precisa de ter um pouco mais de tempo para ganhar confiança no próprio seguro e perceber qual é o valor do prémio e os riscos que o seguro cobre. Wanderley Ribeiro entende que deve ser a missão das seguradoras passar estas explicações.

“Organizámos um evento com as seguradoras e ficou no abstracto como é que na prática vai funcionar. As seguradoras precisam ser mais activas para mostrarem os seus produtos, para vermos na prática como funciona. Precisamos sentir que é um investimento e não um custo”, acrescenta.

Em função dos últimos fenómenos relacionados às alterações climáticas, com seca em algumas regiões e excesso de chuva noutras, o representante da AAPA sublinhou que os agricultores sentem a necessidade de subscrever uma apólice, porque há exemplo de produtores que não conseguiram recuperar alguns prejuízos, sobretudo na última campanha agrícola, onde houve excesso de chuva em vários pontos, que acabou por provocar perdas elevadas.

Enio Miranda, empresário e gerente da Fazenda Vissolela, gostaria de subscrever uma apólice para produção do café, milho e soja, que cobrisse os riscos associados a pestes, mas sente que as seguradoras percebem pouco dos timings do agricultor e têm poucos técnicos dentro da especialidade agrícola, para que tenham um produto concreto.

“Olham mais para números e não para as necessidades do agricultor e, às vezes, a apólice é muito elevada para o tipo de cultura que se pratica. Primeiro têm de perceber o negócio para montarem um produto adequado”, defendeu.

José Maria, responsável da agricultura na província da Huíla, partilha a mesma opinião, mas acrescenta que a implementação do seguro agrícola era para ontem, porque, à medida que o tempo passa, os riscos vão aumentando e a agricultura necessita, urgentemente, do seguro agrícola.

Seguradoras adoptam seguro paramétrico

O facto do seguro agrícola ter um custo elevado é a razão que faz com que a maior parte dos países que o adoptaram tiveram apoio do Estado, mas, como na realidade angolana parece difícil obter este apoio, as seguradoras estão a tentar implementar o seguro paramétrico, uma modalidade diferente da convencional.

“Ao contrário do seguro baseado em indemnização, em que o cliente recebe um pagamento com base no valor reclamado e ajustado pela perda, o seguro paramétrico cobre o pagamento após o cumprimento de parâmetros predefinidos”, explicou Mário Casaca, consultor de seguros.

Nesta altura, a Sanlam, Ensa e Viva Seguros são as únicas seguradoras que estão a implementar o seguro com o apoio do técnico da Corporação Financeira Internacional (IFC), através do memorando assinado com a ARSEG.

A seguradora lançou o seguro agrícola de índice climático para grãos, especificamente na cultura de milho, cujo risco esteja associado à seca e à chuva excessiva. O seguro cobre a estiagem acumulada durante o período de crescimento da plantação ou excesso de precipitação necessária para o crescimento normal das plantas.

O seguro vai custar entre 5 a 8% do valor total dos custos de produção, dependendo do local e dos riscos associados. Expansão

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