A taxa de juro praticada no mercado angolano está entre as mais elevadas do mundo, sendo a oitava mais alta do continente africano entre o conjunto de países com dados disponibilizados até terça-feira, 25.

O Comité de Política Monetária (CPM) do Banco Nacional de Angola (BNA) decidiu, na semana passada, após reunião de dois dias, manter a taxa de juro em 19,5%. Uma taxa que se estabilizou nesta ordem desde Maio de 2024, estando anteriormente em 19% em Março e 18% em Fevereiro do mesmo ano.

A decisão do órgão responsável pela política monetária manteve o país entre os que têm a taxa mais elevada a nível mundial. Por exemplo, em África, no conjunto de 49 países com as taxas de juro vigentes divulgadas, posiciona-se como o sétimo com a mais elevada, somente superada pela Serra Leoa com 24,75%, a vizinha República Democrática do Congo com 25% e o Malawi 26%. Constam ainda da lista onde fazer crédito está mais caro o Gana (27%), Egipto (27,25%), Nigéria (27,5%) e Zimbábue (35%).

Num espectro global, Angola sobe seis lugares, figurando 14º a nível mundial com a taxa de juro mais alta. Na linha da frente encontram-se países como a Venezuela (com 59,36%), Turquia (42,5%), Argentina (29%), Irão (23%), Líbano (20%) e Rússia (21%).

A taxa de dois dígitos registada por Angola, responsável pela presidência da União Africana, é superior à de países que se encontram em conflito político e de ataques terroristas como são os casos da Líbia (3%) e Mali e Níger com 5,5% respectivamente. O Botswana com 1,9% e Seychelles com 1,75% são os países com as taxas de juro mais baixas do continente. Já no mundo, a taxa mais baixa é praticada pelo Japão (0,5%) e Suíça (0,25%).

Dados imprecisos sobre a inflação afectam crédito

Especialistas consideram que ‘dados irreais’ sobre a inflação têm pesado no financiamento às empresas. É o caso dos economistas afetos ao Centro de Investigação Económica da Universidade Lusíada (Cinves-tec), segundo os quais, as taxas não são atrativas devido às dúvidas sobre a inflação.

Os economistas apontam igualmente, entre as causas, “a fraca literacia financeira”, argumentando que o conceito de taxa de juro real não é ainda bem percebido. “Contudo, cremos que o crédito diminuído tem mais que ver com a oferta  doque com a procura e são os bancos que, tentando rentabilizar o seu capital num ambiente difícil, têm criado os maiores obstáculos à concessão de crédito.”

O economista Heitor Carvalho, diretor do Cinvestec, reforça que a “falta de transparência nos dados sobre a inflação” afeta o financiamento às empresas, uma vez que o crédito acaba por ser também mais caro.

O crédito é muito mais caro por causa da inflação. O crédito tem uma elevada dose de incerteza e de risco, porque qualquer incumprimento torna o empréstimo ainda mais arriscado. Temos uma situação que é péssima para o empréstimo, quer do ponto de vista de quem pede emprestado, quer do ponto de vista de quem empresta, que é a taxa de inflação elevada e rápida, ao não permitir uma correcta correspondência entre o momento em que se pede o crédito e o momento em que se recebe o crédito”, exemplifica.

Noutra perspectiva, Eduardo Manuel, outro economista, entende que o facto de a taxa de juro figurar entre as mais elevadas se prende com a ‘falta de liquidez dos bancos para empréstimos ao sector empresarial e às famílias’, devido ao baixo nível de poupança que tem ‘levado à diminuição dos depósitos à ordem e a prazo, bem como à adesão aos outros produtos bancários’.

Para o economista, o Estado terá de intervir através da capitalização dos bancos. ‘Os bancos terão mais liquidez para emprestar aos agentes económicos e estes, por sua vez, irão aumentar a liquidez da banca’, propõe.

Os países com a taxa de juro mais alta”

  1. Venezuela – 59,36%
  2. Turquia – 42,5%
  3. Zimbábue – 35%
  4. Argentina – 29%
  5. Egito – 27,25%
  6. Nigéria – 27,5%
  7. Gana – 27%
  8. Malawi – 26%
  9. República Democrática do Congo – 25%
  10. Serra Leoa – 24,75%
  11. Irã – 23%
  12. Líbano – 20%
  13. Rússia – 21%
  14. Angola – 19,5%

VE

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