O Executivo vai aplicar, este ano, cerca de 5,79 milhões de dólares norte-americanos em serviços de lobby nos Estados Unidos da América, num esforço para fortalecer as relações bilaterais e promover o país no plano internacional. O valor representa um aumento de 2,04 milhões de dólares face aos 3,75 milhões gastos em 2024, segundo documentos oficiais analisados por esta redacção.
O reforço orçamental deve-se à contratação de uma nova empresa de relações governamentais — a BGR Group — juntamente com a renovação do contrato com a já conhecida Squire Patton Boggs (SPB), parceira do Executivo angolano desde 2019.
Novo parceiro e alargamento da estratégia
A BGR Group, com sede em Washington, D.C., foi contratada por 2,14 milhões de dólares para um período de 12 meses, a partir de 15 de Fevereiro de 2025. O acordo prevê serviços de relações governamentais, relações públicas e consultoria estratégica, com foco no desenvolvimento económico e na promoção de investimentos nos Estados Unidos.
Além da taxa fixa, o contrato permite o reembolso de despesas operacionais — como transportes, alimentação e hospedagem — desde que devidamente autorizadas e comprovadas. A decisão de contratar uma segunda empresa de lobby reflete uma estratégia mais abrangente para aumentar a influência de Angola junto ao Congresso norte-americano, ao sector privado e a instituições estratégicas dos EUA.
Por seu lado, a SPB mantém o contrato anual no valor de 3,75 milhões de dólares, idêntico ao de 2024. O acordo, assinado pelo secretário dos Assuntos Diplomáticos para a Cooperação Internacional, Manuel Rita da Fonseca Lima, tem como objectivos:
Promover o comércio e o investimento entre Angola e os EUA;
Melhorar a imagem internacional de Angola;
Apoiar a comunicação estratégica do Governo;
Atrair parcerias para projectos de desenvolvimento.
O pagamento à SPB é feito semestralmente, em duas parcelas de 1,875 milhões de dólares, o que corresponde a uma taxa mensal de 312.500 dólares.
Uma parceria que começou em 2019
A relação com a Squire Patton Boggs iniciou-se em 2019, com um contrato de 4,1 milhões de dólares para o ano de 2020. No entanto, devido à queda dos preços do petróleo e ao impacto económico da pandemia, o valor foi reduzido para 2,5 milhões de dólares em 2021, num contexto de contenção de despesas.
Nos anos seguintes, o montante foi sendo reajustado, atingindo novamente os 3,75 milhões em 2024 e mantendo-se estável em 2025, sinalizando uma retomada da aposta estratégica no mercado norte-americano.
SPB no centro da Cimeira EUA-África em Luanda
Um dos momentos mais destacados da parceria ocorreu em Junho de 2025, durante a realização da Cimeira EUA-África em Luanda, evento histórico que reuniu chefes de Estado, altos responsáveis governamentais e líderes empresariais dos dois lados do Atlântico.
A SPB desempenhou um papel fundamental na organização e promoção do evento, incluindo o desenvolvimento de um projecto de Resolução no Senado dos EUA, subscrito por parlamentares norte-americanos, que reconhece a importância do Corredor de Desenvolvimento do Lobito para a segurança económica e energética dos Estados Unidos.
Numa troca de correspondência entre Robert Kapla, ponto focal da SPB em Angola, e Naz Durakoğlu, representante do Comité de Relações Exteriores do Senado norte-americano, foi proposto o apoio formal ao Corredor do Lobito como parte da estratégia de diversificação das cadeias de abastecimento de minerais críticos — como o cobalto e o lítio — essenciais para a indústria de tecnologia e energias limpas.
A resolução, já em debate no Senado, insta o Governo dos EUA a manter e expandir a cooperação com Angola e outros países africanos nesse domínio.
Estratégia económica ou despesa questionável?
O aumento das verbas para lobby nos EUA reflecte uma aposta clara do Governo angolano em consolidar parcerias estratégicas com potências económicas, especialmente num momento em que Angola procura posicionar-se como um parceiro confiável para investimentos em infra-estruturas, energia e mineração.
O Corredor do Lobito, que liga o porto angolano ao coração mineiro da Zâmbia e à República Democrática do Congo, é visto como um projecto-chave para o desenvolvimento regional e para a integração de África nas cadeias globais de valor.
No entanto, o investimento milionário em empresas de lobby levanta questões legítimas junto da opinião pública, especialmente num contexto em que o país ainda enfrenta desafios como o desemprego, a pobreza e a necessidade de melhorar os serviços básicos.
Especialistas em gestão pública e transparência lembram que, embora a diplomacia económica seja fundamental, é igualmente importante garantir prestação de contas, avaliação de impacto e eficiência na aplicação dos recursos públicos.
Posicionamento estratégico no mundo
Perante um cenário global de concorrência acirrada por investimentos e parcerias, o Governo angolano parece apostar numa diplomacia activa e profissionalizada, com recurso a instrumentos utilizados por países desenvolvidos e emergentes.
O uso de firmas de lobby em Washington não é exclusivo de Angola: muitos Estados africanos e asiáticos já recorrem a consultores internacionais para influenciar políticas externas e atrair capitais.
A diferença, neste caso, está no aumento significativo do orçamento e na contratação simultânea de duas empresas de alto nível, o que indica uma escalada na intensidade da estratégia de promoção internacional.
Fonte: Valor Económica
