Luanda assumiu, mais uma vez, o papel central nas relações financeiras entre a China e o continente africano ao tornar-se o maior beneficiário de empréstimos chineses em 2024, com um total de 1,45 mil milhões de dólares (equivalente a cerca de 1,22 mil milhões de euros). Os dados são do mais recente estudo divulgado pelo Boston University Global Development Policy Centre, que analisa as tendências do financiamento chinês a África.
A quantia destinada a Angola representa quase metade do montante total canalizado para o continente no ano passado um valor que, somado aos demais países, caiu cerca de 50% face a 2023. Este recuo insere-se numa reorientação estratégica por parte de Pequim, que tem vindo a substituir grandes projetos de infraestrutura financiados por dívida soberana por iniciativas mais seletivas, de menor escala e com foco em setores considerados estratégicos.

Energia e infraestruturas urbanas

Em território angolano, os recursos foram direcionados a dois grandes projetos: uma linha de transmissão elétrica, no valor de 641 milhões de euros, e um complexo de infraestruturas na região metropolitana de Luanda, que inclui habitação, vias rodoviárias e a expansão de um porto, orçado em 582 milhões de euros. Ambos os investimentos reforçam a aposta contínua da China em ativos produtivos e logísticos essenciais ao desenvolvimento económico nacional.
Desde o ano 2000, Angola já acumulou mais de 49 mil milhões de dólares (cerca de 41 mil milhões de euros) em empréstimos provenientes da China — o equivalente a mais de um quarto do total concedido a todo o continente nesse período. Esta posição de destaque reflete tanto a solidez das parcerias bilaterais quanto a confiança estratégica depositada por Pequim em Luanda como parceira-chave na África Austral.

Nova fase: menos volume, mais precisão

Apesar da redução nos valores totais, especialistas sublinham que esta não é uma descontinuidade, mas sim uma “calibração” nas políticas de crédito externo da China.
“O que estamos a ver não é uma retirada, mas uma calibração”, afirmou Mengdi Yue, investigadora responsável pelo estudo. Segundo ela, a mudança reflete “lições aprendidas sobre sustentabilidade da dívida e gestão de risco”, especialmente após anos de críticas internacionais sobre a dependência excessiva de alguns países africanos em relação ao endividamento chinês.
Além de Angola, apenas outros cinco países receberam financiamento chinês em 2024: Etiópia, Quénia, Zâmbia, Nigéria e Egito. No total, apenas seis projetos foram aprovados em toda a África, nenhum ultrapassando a fasquia do bilião de dólares (843 milhões de euros), sinalizando uma nova era de parcimónia e seleção criteriosa.

Transição cambial: o avanço do yuan

Outro dado relevante destacado no relatório é a crescente utilização do yuan chinês em vez do dólar norte-americano nos novos acordos. No Quénia, por exemplo, todos os empréstimos para infraestruturas em 2024 foram denominados em moeda chinesa. A conversão da dívida associada à linha ferroviária padrão-queniano para yuan deverá poupar ao país cerca de 215 milhões de dólares (181 milhões de euros) por ano em custos com o serviço da dívida.
Esta mudança pode abrir caminho para uma maior integração financeira entre África e a China, reduzindo a exposição dos países africanos às flutuações do dólar e fortalecendo o papel do yuan como moeda de referência em negócios sul-sul.

Energia verde: o grande desafio futuro

Apesar dos avanços, o estudo alerta para uma lacuna crítica: a ausência de apoio significativo a projetos de energia limpa. “Estamos curiosos para ver se os empréstimos soberanos, juntamente com o comércio e o investimento direto, ainda apoiam a transição verde em África”, disse Mengdi Yue.
Os investigadores sugerem que, no futuro, o envolvimento chinês poderá migrar do financiamento direto de grandes obras para o apoio a estudos de pré-viabilidade, incubadoras de projetos e mecanismos que atraiam investimento privado especialmente no setor energético sustentável.

Perspetivas para África

“A era dos projetos de mil milhões de dólares está a chegar ao fim”, conclui o relatório. “Os novos instrumentos financeiros da China podem definir uma fase mais seletiva, mas potencialmente mais sustentável, do seu envolvimento com África.”
Fonte: RTP NOTICIAS

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