Num contexto de persistente pressão cambial e dependência das exportações petrolíferas, o Banco Nacional de Angola (BNA) injectou no mercado um total de 423,3 milhões de dólares norte-americanos e 48,8 milhões de euros ao longo do ano em curso. Estas intervenções, embora pontuais, revelam uma estratégia concentrada para mitigar tensões no sistema financeiro, mas insuficiente face às demandas da economia nacional.
Distribuição das Vendas em Dólares
A actuação do BNA em dólares concentrou-se maioritariamente na segunda metade do ano, com cerca de 92% do total vendido entre Julho e Dezembro. Os meses de maior intervenção foram Agosto (148,9 milhões USD), Dezembro (88,5 milhões USD), Outubro (86,2 milhões USD) e Julho (61,1 milhões USD), que juntos absorveram aproximadamente 384 milhões USD. Esta abordagem pontual surge em resposta a picos de procura cambial, contrastando com o primeiro semestre, onde as vendas se limitaram a 17,5 milhões USD em Janeiro.
De acordo com relatórios do próprio BNA, este padrão coincide com uma trajectória descendente das reservas internacionais líquidas (RIL) no início do ano, reflectindo desafios macroeconómicos como a queda na produção petrolífera.
Papel Residual na Estratégia Cambial
As operações em euros foram ainda mais restritas, totalizando 48,8 milhões EUR – equivalente a cerca de 11,5% do volume em dólares. As vendas ocorreram principalmente em Março (21,0 milhões EUR), Abril (19,0 milhões EUR) e Julho (8,8 milhões EUR), sem registo de intervenções na segunda metade do ano. Este comportamento alinha-se com a estrutura do comércio externo angolano, onde mais de 90% das exportações e uma fatia significativa das importações são denominadas em dólares, reduzindo a relevância do euro nas transacções.
Desafios Persistentes na Economia Angolana
Os valores injectados pelo BNA contrastam com as necessidades reais da economia. As importações anuais de bens e serviços ultrapassam os 20 mil milhões USD, enquanto o sistema bancário satisfaz menos de 60% da procura de divisas, conforme dados estatísticos do sector. O sector petrolífero, que responde por mais de 90% das exportações e um terço das receitas fiscais, enfrenta uma tendência de declínio na produção, limitando a entrada de moeda estrangeira.
Apesar da relativa estabilidade da taxa de câmbio, esta tem sido mantida através de um racionamento rigoroso de divisas, o que penaliza empresas importadoras, atrasa pagamentos externos e eleva custos de produção. Estes factores agravam o estrangulamento da actividade económica, num país ainda altamente dependente de importações para bens essenciais.
Fonte: Jornal Expansão
