A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) enfrenta um momento crucial em um contexto de desglobalização, com oportunidades para reforçar a coesão, mas com desafios significativos, como a ausência de uma liderança clara. Essa foi uma das conclusões do painel “Um mundo em transformação – Desafios e oportunidades da Lusofonia em contexto de (des)globalização”, realizado na conferência “Doing Business Angola”.
Economia Política e Liderança na CPLP
Carlos Feijó, ex-ministro de Estado de Angola e jurista, destacou que existe uma “economia política da lusofonia”, com uma rede complexa de interesses políticos, geoestratégicos e econômicos em construção. Contudo, ele apontou a falta de uma liderança central como um obstáculo. “Não há uma âncora, o que é um problema sério”, afirmou. Para Feijó, a força de cada Estado-membro em seu próprio território é essencial antes de consolidar a comunidade como um todo.
Geopolítica e o Valor da CPLP
Luís Amado, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, reforçou a relevância da CPLP em um mundo em transformação. “Estamos numa revolução geopolítica impressionante”, disse, destacando que a universalidade da comunidade a torna mais valiosa em um cenário de fragmentação global. Amado alertou, no entanto, para a dificuldade de alinhar interesses nacionais com os da CPLP, especialmente devido ao desenvolvimento assimétrico entre os países-membros.
Estabilidade Política e Pressões Externas
Feijó enfatizou a estabilidade política como um dos principais desafios da CPLP. Ele mencionou pressões externas, como as exercidas por potências como Estados Unidos e China, que, segundo ele, por vezes chegam a “roçar a chantagem”. Para o ex-ministro, a solução pode passar por projetos conjuntos que unam os países da comunidade. Ele também destacou as diferenças de desenvolvimento, citando Moçambique e Guiné-Bissau como casos desafiadores, enquanto Angola se mantém relativamente estável.
Contexto Geopolítico e Multipolaridade
Luís Amado alertou para a “incerteza radical” do atual cenário geopolítico, com a emergência de um mundo multipolar e o risco de guerras regionais. Ele comparou a situação atual em África ao final do século XIX, enfatizando a necessidade de avaliar corretamente riscos e oportunidades. Para Amado, a resposta de Angola às pressões externas será determinante para seu posicionamento no cenário global.
Relações Angola-Portugal
Carlos Feijó abordou a gestão dos ativos angolanos em Portugal, recordando o apoio de Angola durante a crise financeira de 2008. “Fomos ingratamente maltratados”, afirmou, referindo-se à relação pós-crise. Apesar disso, ele garantiu que Angola não planeja se desfazer desses ativos, destacando a importância das pequenas e médias empresas no momento atual.
A CPLP, segundo os painelistas, possui características únicas que devem ser valorizadas, mas exige esforços para superar desafios internos e externos, especialmente em um mundo em rápida transformação. FAL
