Os salários na comunicação social privada em Angola sempre foram modestos, mas houve um período de relativa prosperidade, especialmente até 2012, quando os valores variavam entre 150 dólares para iniciantes e até quatro mil dólares para profissionais experientes. No extinto semanário AGORA, por exemplo, sob a direção de Aguiar dos Santos, jornalistas em fase experimental recebiam 150 dólares, evoluindo para salários entre mil e quatro mil dólares, conforme o desempenho. Havia ainda subsídios como 100 dólares por fecho de edição e 200 dólares mensais para coordenadores de página, totalizando, em alguns casos, até 1.300 dólares. Além disso, a empresa oferecia benefícios como almoços coletivos semanais e transporte, além de bônus de fim de ano entre 200 e 300 dólares.
Essa bonança era sustentada por publicidade de bancos, seguradoras como a Ensa e empresas como Casa Blanca e Maboque, além de papel doado pela USAID, resultado de esforços da Associação de Imprensa Privada de Angola (AIPA). Algumas publicações chegaram a trocar publicidade por viaturas distribuídas aos jornalistas. No entanto, com a queda na receita publicitária, jornais como AGORA, Angolense e Capital enfrentaram crises financeiras, resultando em vendas ou extinção.
Após a morte de Aguiar dos Santos, o AGORA manteve salários razoáveis até ser adquirido pela Nova Vaga, quando profissionais estrangeiros, como paginadores portugueses, recebiam até cinco mil dólares, com benefícios como viatura e casa, enquanto jornalistas angolanos ganhavam no máximo dois mil dólares. No setor público, como no Jornal de Angola, assessores estrangeiros chegavam a faturar dez mil dólares mensais, enquanto jornalistas locais recebiam salários muito inferiores.
Atualmente, a inflação e a desvalorização do kwanza corroem o poder aquisitivo. Um jornalista sênior do Jornal de Angola relatou que os 600 mil kwanzas que recebe hoje equivaleriam a seis mil dólares no passado, mas agora mal sustentam uma vida digna. Ele destaca que, exceto em setores como petróleo e Administração Geral Tributária (AGT), ninguém no país ganha bem. A redução de preços de produtos como o saco de arroz, que caiu de 21 mil para 17 mil kwanzas, é vista como positiva, especialmente por iniciativas como a da empresa Carrinho, que estimula a produção local.
O economista Arlindo Praia Sicato reforça que o aumento da oferta de produtos no mercado é essencial para fortalecer o poder aquisitivo. Ele critica o despesismo estatal, como a compra de viaturas de luxo e o pagamento de salários a empresas falidas, além de fatores externos como tarifas americanas e a guerra na Ucrânia, que encarecem bens e serviços.
Desafios Éticos e Salários Míseros
Em 2023, o então presidente do Sindicato dos Jornalistas Angolanos (SJA), Teixeira Cândido, anunciou esforços para estabelecer contratos coletivos de trabalho no setor privado, definindo um salário mínimo. Relatórios regionais revelaram salários tão baixos quanto cinco mil kwanzas (menos de 10 dólares) em emissoras como a Rádio Ecclésia, especialmente nas províncias do Leste e Sul. Luísa Rogério, presidente da Comissão da Carteira e Ética (CCE), classificou esses valores como “absurdos” e criticou a falta de incentivos fiscais para a mídia privada.
A Rádio Ecclésia enfrenta dificuldades financeiras, conforme admitiu o diretor Augusto Epalanga, resultando na perda de jornalistas. Herculano Coroado, ex-jornalista da Angop, destacou que salários baixos comprometem a qualidade da informação e tornam os profissionais vulneráveis.
A CCE puniu jornalistas por atividades incompatíveis com a profissão, como gravar propagandas. Casos notórios incluem Ernesto Bartolomeu, da TPA, e Salú Gonçalves, da Rede Girassol, multados por violações éticas. Enquanto alguns, como Fernando Calueto, apoiam as punições, outros, como Horíbio Fernandes e Jubileu Panda, argumentam que salários de 40 mil a 150 mil kwanzas forçam jornalistas a buscar rendas extras, violando a deontologia profissional.
Os baixos salários na comunicação social angolana, aliados à desvalorização do kwanza e à falta de incentivos fiscais, criam um ciclo de precariedade que compromete a ética jornalística e a qualidade da informação. Iniciativas como contratos coletivos e o aumento da produção local são passos positivos, mas a solução exige esforços conjuntos do governo, empresas e entidades reguladoras.
