O Corredor do Lobito, projecto estratégico com forte investimento dos Estados Unidos e da Europa, está a impulsionar uma nova fase de abertura do sistema financeiro angolano ao mercado internacional. Um dos mais expressivos sinais desse movimento é o reforço das relações de correspondência bancária entre instituições angolanas e grandes bancos globais, liderado pelo Deutsche Bank.
O banco alemão já celebrou acordos formais com quatro instituições angolanas: BFA, Millennium Atlântico, Standard Bank e o Banco Nacional de Angola (BNA), anunciou Patricia Sullivan, directora executiva do Deutsche Bank para Institutional Cash Management, durante visita oficial a Luanda esta semana.
Estes acordos permitem que os bancos locais processem operações internacionais em dólares americanos e euros com maior eficiência, facilitando o comércio externo, melhorando o acesso ao financiamento e aumentando a confiança dos parceiros estrangeiros no sistema financeiro nacional.
“O nosso principal objectivo foi estreitar laços com os nossos novos parceiros e reconhecer a importância desta colaboração”, afirmou Sullivan. “O BFA foi o primeiro, e estamos orgulhosos não só por isso, mas também pela forma como a relação evoluiu nos últimos meses. Já integrámos quatro instituições nesta primeira vaga — um passo significativo para Angola.”
O Deutsche Bank actua em Angola desde 2003 e tem acompanhado o desenvolvimento do país com apoio a projectos-chave em sectores como saúde, saneamento básico e infra-estruturas públicas. Segundo Sullivan, a actual expansão das parcerias bancárias é uma extensão natural dessa presença contínua: “Nunca cortámos laços com Angola, mesmo nos períodos mais difíceis. Continuámos a apoiar o país indirectamente, através de outras instituições com as quais mantemos relações fora do território nacional.”
A responsável destacou ainda que, apesar de Angola permanecer na lista cinzenta do Grupo de Acção Financeira Internacional (GAFI), o banco adota uma abordagem baseada em risco bem gerido e no conhecimento profundo dos parceiros locais. “Levamos muito a sério a conformidade. O importante é que o país está a avançar com reformas sérias no combate ao branqueamento de capitais. E nós trabalhamos em parceria com os bancos locais para elevar padrões, em vez de simplesmente nos afastarmos.”
Mathew Probershteyn, director executivo do Deutsche Bank com funções na área de correspondência e financiamento do comércio externo, que integrou a comitiva em Luanda, reforçou essa posição: “Temos um departamento dedicado a apoiar instituições em contextos de risco elevado. Em vez de fugir, enfrentamos os desafios juntos. É assim que se constrói resiliência e confiança.”
A retomada de relações de correspondência internacional marca o fim de mais de uma década de isolamento financeiro, que começou em 2015, quando reguladores norte-americanos suspenderam muitas dessas parcerias devido a falhas de compliance no sistema angolano. Até então, apenas pequenas instituições ou bancos marginais ofereciam serviços limitados em moeda norte-americana.
A mudança actual é vista como resultado combinado de esforços internos de reforma e do peso geopolítico do Corredor do Lobito. A visita do antigo presidente norte-americano Joe Biden e de líderes europeus a Angola, associada ao projecto, sinalizou um novo alinhamento estratégico. Fontes do sector bancário confirmam que essa intervenção política teve impacto directo na reabertura do espaço financeiro por parte dos EUA.
Mário Nascimento, presidente da Associação Angolana de Bancos (ABANC), considera este momento histórico: “O regresso do JP Morgan e agora o papel do Deutsche Bank marcam o início de uma nova era. Há forte expectativa de que outros grandes bancos norte-americanos, como o Citibank ou o Bank of America, sigam o mesmo caminho.”
Fonte: Jornal Expansão
