O número de empresas dis-solvidas no Gui-ché Único da Empresa (GUE) nos primeiros nove meses de 2026 já ultrapassa o total registado nos 12 meses de 2025. Entre Janeiro e Setembro deste ano, foram dissol-vidas 337 empresas, contra 313 em todo o ano passado, o que repre-senta um aumento de 7,7%, face ao total anual de 2025.
A evolução ocorre num período em que o número de novas empre-sas também mantém uma trajectória ascendente. Nos primeiros nove meses de 2026, foram constituídas 44.527 empresas, contra 31.974 no período homólogo de 2025, correspondendo a um crescimento de 39,3%.
Os dados do GUE mostram, entretanto, uma aceleração das dis-soluções ao longo do ano. No primeiro trimestre foram encerradas 71 empresas, número que subiu para 129 no segundo trimestre e atingiu os 137 entre Julho e Setembro.
No período homólogo de 2025, o GUE tinha registado 78 dissoluções no primeiro trimestre, 80 no segundo e 87 no terceiro, totalizando 245 empresas. Assim, nos primeiros nove meses deste ano, o número de dissoluções aumen-tou 37,6% face ao mesmo período do ano passado.
Apesar do aumento dos encerramentos, a criação de empresas apre-senta um comportamento inverso. Entre Janeiro e Março foram constituídas 14.553 empresas, número que subiu para 15.677 no segundo trimestre, antes de recuar para 14.297 no terceiro. No mesmo período de 2025, tinham sido registadas 9.282, 10.993 e 11.699 constituições, res-pectivamente.
Para o economista Bernardo Vaz, o aumento das dissoluções está associado a um conjunto de constrangimentos estruturais que con-tinuam a limitar a capacidade de sobrevivência das empresas. Entre os principais problemas, aponta a dificuldade de acesso ao crédito, inclusive para necessidades corren-tes de tesouraria, o acesso às divisas para a importação de matérias-pri-mas e equipamentos, os elevados custos de transporte e os encar-gos com energia e água.
Segundo o economista, a demora no acesso ao financiamento pode fazer com que uma empresa perca capacidade de operação antes de conseguir obter o crédito. O mesmo acontece com empresas dependentes de impor-tações, quando a indisponibilidade ou demora na obtenção de divisas atrasa as compras ao exte-rior e, consequentemente, o processo produtivo.
Bernardo Vaz destaca ainda os custos associados à energia, sobretudo para empresas que dependem de geradores, a escassez de mão-de-obra especializada e a demora na importação de peças sobressalentes, factores que podem levar à paralisação de equipamentos e à redução da produção.
INFORMALIDADE PESA
Outro factor apontado pelo economista é a concorrência dosector informal. Para Bernardo Vaz, as empresas formalizadas suportam impostos e contribuições para a segurança social que aumentam os seus custos, enquanto os operadores infor-mais conseguem praticar preços mais baixos.
Esta diferença, segundo explica, reduz a capacidade de concorrência das empresas formalizadas, podendo provocar uma quebra na procura e nas receitas e, em última instância, contribuir para o encerramento de negócios.
O economista considera, no entanto, que o crescimento do número de constituições demonstra que continua a existir iniciativa empresarial no país. Ο problema, sustenta, está menos na vontade de criar negócios e mais nas condições para garantir a sua sobrevivência.
REGRAS PROPORCIONAIS
Bernardo Vaz defende, por isso, que as exigências fiscais e administrativas sejam proporcionais à dimensão e ao tempo de actividade das empresas. Na sua perspectiva, os negócios recém criados deveriam beneficiar de um período de adaptação, permitindo-lhes ganhar capacidade financeira antes de estarem sujeitos às mesmas exigências aplicadas às empresas já consolidadas.
“A taxa de mortalidade das empresas tem que reduzir”, defende o economista, considerando que a criação de novos negócios perde parte do seu efeito quando estes não conseguem sobreviver aos pri-meiros anos de actividade.
Na mesma linha, o presidente da Prestígio-Liga dos Empresários de Angola, Hirondino Gar-cia, considera que o aumento das dissoluções reflecte as dificuldades enfrentadas diariamente pelo tecido empresarial.
O líder associativo aponta a pressão fiscal e burocrática, a dificuldade de recuperação de valores devidos pelo Estado e as acções de fiscalização como alguns dos facto-res que levam empresários a ponde-rar o encerramento dos negócios.
Hirondino Garcia chama par-ticular atenção para as pequenas empresas, como barbearias e outros negócios de reduzida dimensão, que, segundo afirma, precisam de maior margem para se consolidarem. Considera também que as medidas de simplificação anunciadas pelo Executivo nem sempre se reflectem na prática, devido às exi-gências e procedimentos enfrenta-dos pelos operadores.
Para o responsável, a actual conjuntura económica não tem favorecido suficientemente o crescimento empresarial, levando alguns asso-ciados a manifestarem a intenção de abandonar a actividade.
Os números de empresas dissolvidas no GUE, entretanto, podem não reflectir integralmente o cenário do mercado, uma vez que empresas que deixam de operar podem não formalizar o encerramento junto da entidade competente.
Os dados do GUE revelam, assim, dois movimentos simultâneos: mais pessoas e investido-res a constituírem empresas e, ao mesmo tempo, mais negócios a abandonarem o mercado. A evo-lução dos dois indicadores coloca em evidência o desafio de garantir não apenas a criação de empresas, mas também condições para a sua permanência e crescimento.
Fonte: Valor Económico
