A greve dos agentes autorizados da ENDE, que deveria durar apenas seis dias, prolongou-se por quase dois meses, criando um verdadeiro caos no atendimento aos clientes em Luanda. Embora algumas lojas tenham reaberto nesta quarta-feira, a empresa pública está a reduzir significativamente o número de agentes autorizados, complicando ainda mais a situação para consumidores com faturas pendentes.
Reavaliação e “limpeza” na lista de agentes
Os agentes autorizados pela Empresa Nacional de Distribuição de Eletricidade (ENDE) suspenderam esta semana a greve iniciada em março, quando acusaram a empresa pública de não lhes pagar 1,2 mil milhões de kwanzas pela prestação de serviços entre junho de 2024 e janeiro de 2025. No entanto, os pagamentos por parte dos clientes continuam a ter de ser feitos diretamente à ENDE.
A empresa está a proceder a uma rigorosa reavaliação dos 55 agentes autorizados, com o objetivo de manter apenas aqueles que têm cumprido com os acordos estabelecidos, conforme apurou o Expansão.
“Muitos dos agentes não cumprem com os mínimos do contrato, como prestar contas da atividade que exercem, além de, às vezes, terem comportamentos abusivos com os clientes, o que mancha a imagem e a reputação da ENDE. Por isso estamos a limpar a lista”, revelou uma fonte do setor elétrico ao Expansão.
Reabertura gradual das lojas
Enquanto algumas lojas de agentes reabriram esta semana, outras continuam encerradas por não terem acesso ao software de gestão necessário para as cobranças. Esta situação deverá persistir por algum tempo, com a ENDE já tendo avançado com a rescisão de contratos de alguns agentes.
Segundo Luquelo Miguel Paulo, presidente da Associação dos Agentes Autorizados da ENDE (A.A.A.E), a sua organização já foi notificada para retomar os serviços. “Nesta quarta-feira retomamos os serviços. Temos consciência que a ENDE está a proceder a uma limpeza na lista”, afirmou o líder associativo, sem fornecer mais detalhes sobre as renegociações em curso.
Pagamento parcial da dívida
O Expansão apurou que a ENDE já avançou com o pagamento de 615 milhões de kwanzas, aproximadamente metade do valor em dívida aos agentes. Dos oito meses em atraso, a empresa pública tem agora quatro por liquidar.
Filas intermináveis e clientes frustrados
Este impasse de quase dois meses aumentou drasticamente o fluxo de pessoas nas lojas oficiais da ENDE, transformando o pagamento das faturas de energia num verdadeiro desafio para os consumidores.
A reportagem do Expansão constatou enormes filas nas lojas de atendimento da ENDE, com muitos clientes a desistirem de pagar as suas faturas. Manuel Guilherme, que se deslocou à loja sede no bairro São Paulo para pagar o consumo de eletricidade dos últimos dois meses (março e abril), acabou por desistir após horas de espera.
“Não consegui pagar apesar de chegar aqui relativamente cedo. Há poucos balcões para o número de clientes que se deslocam a esta loja. Não sei o que vai acontecer depois, mas já não volto enquanto o atendimento for este”, lamentou.
Aumento da dívida dos consumidores
A greve dos agentes provavelmente agravará a dívida dos clientes com a ENDE, que já atinge cerca de 220 mil milhões de kwanzas. Isso ocorre principalmente porque o pagamento da conta de energia tem sido uma das últimas preocupações da população, devido à ineficiência no atendimento e à baixa qualidade dos serviços prestados pela empresa.
A associação dos agentes tinha definido um cronograma de execução da dívida que exigia o pagamento de 50% do valor total, o que está a acontecer visto que quatro dos oito meses em dívida já foram pagos. A outra metade deverá ser paga em parcelas mensais, juntamente com os pagamentos correntes, até que a dívida seja totalmente liquidada. Expansão
