A variação cambial e as elevadas taxas aduaneiras estão a sufocar o negócio das ‘muambeiras’, comerciantes informais que importam vestuário, roupas de cama, mobiliário, cerâmica e cabelo. Atualmente, para desalfandegar um contentor, estas mulheres desembolsam cerca de 14 milhões de kwanzas, um aumento drástico comparado aos 2,5 milhões pagos entre 2010 e 2014.

Das origens históricas à realidade atual

A denominação “muambeira” tem origem no Brasil, através de uma francesa, Joanna D’Entremeusa, natural de Champagne, que teria viajado para as Ilhas Maurícias buscando lucros com a ‘muamba’ trazida pelos navios portugueses que passavam por Moçambique.

Em Angola, o fenómeno surgiu na década de 1980, durante o auge do mercado Roque Santeiro. Após o alcance da paz em 2002, o negócio ganhou uma nova dinâmica, com muitas mulheres a viajar para o Brasil, trazendo roupas, calçados e cabelo.

Estratégias de sobrevivência face à crise

Cecília Chimuco, 50 anos, com 17 anos de experiência como “muambeira”, conta que o bom ambiente económico de 2010 permitiu que mais mulheres começassem a viajar para a China, África do Sul, Namíbia, Dubai, Tailândia e Turquia. No entanto, a escassez de divisas e as altas taxas aduaneiras obrigaram estas comerciantes a reinventar-se.

“Antes, cada uma comprava mercadoria para um ou mais contentores. Hoje, juntamos dinheiro de 30 ou mais senhoras, compramos um bilhete de passagem no valor de 1.300.000 a 1.600.000 kwanzas para uma viajar e comprar as mercadorias”, explica Cecília.

Impacto da desvalorização cambial

O câmbio atingiu a barreira dos 100 mil kwanzas por cada 100 dólares, contra os 10 mil de há 15 anos. Para cada 100 dólares enviados para o exterior, principalmente para a China, as “muambeiras” têm de desembolsar mais cinco dólares em taxas.

Atualmente, estas comerciantes já não desalfandegam os seus contentores diretamente, recorrendo a despachantes para o embarque e desembarque de mercadorias.

Adaptação e diversificação

Com veia empreendedora, Cecília fez um curso médio de contabilidade para melhor gerir o negócio e, mais tarde, formou-se em ciências farmacêuticas. Como alternativa à “muamba”, constituiu uma farmácia.

“Fiz estas formações a contar com o meu negócio. Quando abandonar as viagens e a venda de roupas, vou-me dedicar à minha farmácia”, afirmou, apelando ao Governo para tomar medidas que visem reduzir as taxas aduaneiras.

Outros testemunhos

Inês Maria Canais, residente no Grafanil e “muambeira” há 30 anos, também foi obrigada a deixar de viajar devido às dificuldades na obtenção de dólares. “Atualmente, vendo roupas que compro nos armazéns e nas senhoras que conseguem fazer ‘sócia'”, conta.

Durante a Feira do Alameda, que se realiza semanalmente em Luanda, Inês faz vendas médias de 20 a 40 mil kwanzas. “O Dólar ficou apenas para os grandes empresários”, lamenta.

Já Branca Maria Maurício, ex-funcionária de 31 anos, agora trabalha por conta própria, comprando roupas nos armazéns locais e fazendo encomendas online por falta de capital para viajar ao exterior. NJ

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