Angola e Moçambique consolidam-se como os principais mercados africanos de língua portuguesa para escritórios de advocacia, consultoria e empresas nacionais, impulsionados por grandes projetos de infraestrutura, energia e mineração. A tendência foi confirmada por responsáveis de quatro dos principais escritórios jurídicos e consultoras internacionais com atuação na região.
Segundo José Miguel Oliveira, sócio da área de Oil & Gas da sociedade VdA, “Angola continuará a ser o principal destino das exportações portuguesas”, beneficiando da aposta governamental na estabilização da produção petrolífera acima de um milhão de barris diários. Projetos como Kaminho e Clov Fase 3 (TotalEnergies), Agogo e Ndungu (Azule Energy) e N’Dola Sul (Chevron) sinalizam forte dinamismo no setor energético angolano.
O especialista destaca ainda que empresas portuguesas de engenharia, manutenção, hidráulica e metalomecânica têm potencial para alavancar sua presença local e contribuir diretamente para esses empreendimentos. “Estamos perante uma oportunidade concreta de transferência de know-how e geração de valor sustentável”, afirma.
Infraestruturas e logística: motor do crescimento em Angola
Com as eleições gerais agendadas para 2027, o investimento em infraestruturas deverá manter ritmo acelerado em 2026. O Corredor do Lobito, o novo Aeroporto Internacional de Luanda — com destaque para a participação da Mota-Engil —, a cidade aeroportuária, os terminais de Soyo e Cabinda, os corredores ferroviários sul e norte e a expansão do terminal de contentores do Porto do Namibe são alguns dos vetores estratégicos que atrairão o setor privado.
No setor energético, as recentes alterações à Lei Geral da Electricidade, aprovadas pela Assembleia Nacional em julho de 2025, põem fim ao monopólio da RNT-EP como “comprador único”, abrindo caminho para maior participação do investimento privado. Já na agroindústria, apesar do crescimento moderado esperado (2–3% em 2026), há espaço para maior envolvimento de empresas portuguesas, atualmente menos presentes do que concorrentes francesas e italianas.
Moçambique: “momento de viragem” após ano fraco
Em Moçambique, o cenário é descrito como de “viragem”, impulsionado pela retoma dos projetos na Bacia do Rovuma (GNL) e pelo bom desempenho da indústria extrativa, especialmente na produção de ouro. Contudo, o país enfrenta desafios de curto prazo, como a paragem programada da plataforma FLNG Coral Sul e o declínio da produção nos campos de Pande e Temane.
Apesar disso, projetos como Coral Norte FLNG (Eni), Mozambique LNG (TotalEnergies) e o futuro Rovuma LNG (ExxonMobil) garantem perspetivas positivas no médio e longo prazos. Após um 2025 marcado por instabilidade pós-eleitoral e insegurança persistente em Cabo Delgado, espera-se uma recuperação do PIB real entre 2,5% e 2,8% em 2026, com destaque para os setores extrativos, construção, serviços, agricultura e pescas.
Miguel Farinha, country managing partner da EY, sublinha que “2026 deverá ser marcado pelo re‑arranque dos grandes projetos de gás natural no norte de Moçambique”, estimulando não só o investimento direto estrangeiro, mas também o surgimento de cadeias de valor locais. “Será crucial contar com serviços profissionais especializados em compliance fiscal, operações e gestão de talento”, acrescenta.
Transformação económica regional e oportunidades emergentes
Sébastien Coquard, sócio da Pérez-Llorca em Lisboa, observa que África está a transitar de modelos extrativos para economias diversificadas, ancoradas em energia, infraestruturas, transformação local de recursos e serviços. “Projetos como corredores logísticos, portos integrados e plataformas industriais tornaram-se ativos estratégicos”, afirma, citando exemplos como o interconnector HVDC de 2.000 MW em Angola e o sistema híbrido solar-bateria-diesel de Balama, em Moçambique.
O ecossistema fintech africano também avança rapidamente, com startups a captarem financiamento para soluções financeiras regionais. Iniciativas como o “Digital Trade for Africa”, promovida pela OMC e Banco Mundial, reforçam a modernização regulatória e o comércio digital no continente.
Novos investidores e setores em ascensão
A Abreu Advogados antecipa que Angola verá em 2026 uma mudança no perfil dos investidores, com maior protagonismo do Médio Oriente e da África Subsariana. Além dos tradicionais diamantes, a mineração ganhará impulso com metais críticos para a transição energética. No imobiliário, projetos como o Dubai Investment Park na Barra do Dande indicam recuperação gradual.
Em Moçambique, o gás natural da Bacia do Rovuma continuará a gerar demanda por assessoria jurídica em concessões, PPPs e arbitragem internacional. O crescimento urbano e turístico em Maputo e outras cidades-chave impulsionará o mercado imobiliário, enquanto o setor financeiro se expandirá nas áreas de microfinanças, seguros e combate ao branqueamento de capitais.
Timor-Leste: reformas e digitalização
Fora do continente africano, Timor-Leste também merece atenção. Em 2026, o país concentrará esforços em infraestruturas (água, saneamento, telecomunicações), transição energética com foco em energia solar e modernização da rede elétrica. A preparação para a introdução do IVA em 2027 e a harmonização regulatória com os padrões da ASEAN criarão novas oportunidades para investidores antecipados.
Fonte: Jornal Económica
