As estradas de Angola transformaram-se em verdadeiras armadilhas mortais. Nos últimos meses, o país assiste a uma onda de acidentes fatais que ceifam vidas nas zonas urbanas e nas vias interprovinciais. A resposta oficial, quase automática, aponta o dedo aos motoristas. Mas uma análise mais profunda revela uma verdade incómoda: a negligência de quem constrói e de quem governa é, muitas vezes, a verdadeira culpada. Estradas mal sinalizadas, sem iluminação, sem bermas e com valas de drenagem desprotegidas são cenários de tragédia anunciada, onde a impunidade parece reinar.
A Impunidade que Alimenta as Tragédias
O caso de Joaquim Sebastião, ex-director do Instituto Nacional de Estradas de Angola (INEA), é um retrato gritante desta realidade. Em 2019, Sebastião foi detido sob acusações graves de peculato, corrupção, branqueamento de capitais e associação criminosa, num esquema que desviou centenas de milhões de dólares em contratos de obras rodoviárias. Contudo, pouco tempo depois, foi libertado, alegando problemas de saúde. Hoje, vive uma vida de luxo em Lisboa, em bairros nobres, onde, segundo relatos, chega a exigir que lojas fechem as portas para fazer compras em privacidade, evitando contacto com outros angolanos.
Durante o seu mandato, Sebastião supervisionou grandes projectos rodoviários, incluindo a Via Expressa de Luanda, oficialmente baptizada como Avenida Comandante Fidel Castro. Com cerca de 54 km e três faixas por sentido, a via liga Cacuaco ao sul de Talatona. Quando anunciou que a obra estava pronta para inauguração, o então Presidente José Eduardo dos Santos constatou falhas graves: sinalização deficiente, ausência de barreiras de protecção e iluminação precária. Indignado, Dos Santos recusou-se a inaugurar a via e ordenou a detenção de Sebastião. Porém, graças a uma rede de influências, a prisão foi breve, e a impunidade prevaleceu.
Estradas Mal Projectadas, Vidas Perdidas
A rede rodoviária angolana soma aproximadamente 72.000 km, dos quais apenas 8.000 km são asfaltados, segundo dados oficiais. Províncias como Luanda, Huíla e Huambo lideram as estatísticas de acidentes, frequentemente atribuídos à imprudência dos condutores. No entanto, as falhas estruturais das vias são sistematicamente ignoradas. Bacias de drenagem sem protecção, ausência de sinalização adequada e falta de iluminação transformam as estradas em verdadeiros campos minados.
Como insistir que a culpa é apenas dos motoristas, quando as infraestruturas são entregues com falhas evidentes? A responsabilidade recai directamente sobre o Estado, que financia e aprova estas obras, e sobre as construtoras, que lucram com projectos mal executados. Engenheiros, fiscais, supervisores e gestores públicos também devem ser chamados a responder por estas tragédias.
O Clamor por Justiça
O sangue derramado nas estradas angolanas exige justiça. Não basta apontar o dedo aos condutores; é preciso responsabilizar todos os envolvidos, desde os motoristas até aos altos responsáveis pelas obras. Enquanto figuras como Joaquim Sebastião vivem em liberdade e opulência, as suas estradas continuam a matar. O Estado, ao permitir a entrega de infraestruturas deficientes, torna-se cúmplice destas mortes.
Angola precisa de uma resposta urgente e integral. Exige-se responsabilização criminal, cível e política de todos os agentes envolvidos nestes crimes. Só assim o país poderá transformar as suas estradas em caminhos de progresso, em vez de corredores de morte.
