Empresário de 67 anos, Eugénio Neto, afirmou em tribunal que os 1,5 mil milhões de dólares (cerca de 1,3 mil milhões de euros) emprestados pelo Banco Espírito Santo Angola (BESA) às suas sociedades serviram exclusivamente para comprar terrenos no país, usados como garantia dos financiamentos. O depoimento foi prestado no âmbito do julgamento que decorre em Lisboa desde 5 de maio de 2025 e tem impacto directo nas famílias angolanas: representava potencial para projectos de desenvolvimento em várias províncias, criação de postos de trabalho e circulação de divisas que poderiam reforçar o Kwanza.

“O financiamento era para comprar o activo. E talvez vedar o activo e fazer alguma coisa relacionada com isso. O investimento teria de ser feito por mim”, explicou Eugénio Neto, ouvido como testemunha no Tribunal Central Criminal de Lisboa. Segundo o gestor, o plano passava por atrair investidores terceiros para desenvolver os terrenos, mas o projecto nunca avançou.

“Os investidores chegavam, mas havia uma morosidade muito grande na legalização desses activos nos ministérios”, lamentou o empresário, de 67 anos. Passado um, dois ou três anos sem investimento, o BESA começava a exigir o pagamento dos juros acumulados.

Morosidade administrativa e dívida acumulada

Embora os negócios remontem a 2009, 2010 e 2011, a dívida só foi resolvida entre 2017 e 2018, através de um acordo de dação em pagamento celebrado com o Banco Económico, sucessor do BESA. Eugénio Neto entregou os activos para liquidar o passivo.

De acordo com a acusação do Ministério Público português, a maioria dos 1,5 mil milhões de dólares emprestados a sociedades ligadas ao empresário não teve finalidades produtivas, o que configura alegado desvio de fundos.

O processo julga cinco arguidos, entre os quais o ex-presidente do BES, Ricardo Salgado, e o ex-presidente do BESA, Álvaro Sobrinho. Os factos incidem sobretudo sobre alegados desvios de fundos entre 2007 e 2012, através de linhas de crédito do Mercado Monetário Internacional e de descoberto bancário.

Os arguidos respondem por abuso de confiança, branqueamento de capitais e burla qualificada, crimes que todos negam.

O BES faliu no verão de 2014 e o BESA foi liquidado em Outubro do mesmo ano. O julgamento continua em Lisboa, com reflexos directos na credibilidade do sector bancário angolano e na confiança dos cidadãos que ainda hoje sentem os efeitos da crise que se seguiu.

Fonte: Lusa

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