A Galp registou uma forte desvalorização na Bolsa de Valores de Lisboa na terça-feira, 9 de dezembro, com uma perda superior a 1,77 mil milhões de euros após o anúncio do novo acordo com a TotalEnergies relativo à exploração de petróleo na Namíbia. A petrolífera portuguesa encerrou a sessão com uma queda de quase 15%, fixando-se em 10,284 mil milhões de euros de valorização de mercado.

O mercado reagiu com ceticismo ao novo arranjo societário na região offshore da bacia de Orange, uma das fronteiras exploratórias mais promissoras do mundo. Apesar da relevância estratégica do negócio, investidores parecem ter ficado decepcionados com os termos do acordo, que prevê a entrada da TotalEnergies como operadora-chave e parceira financeira.

Estrutura do novo consórcio na Namíbia

Nos termos do acordo, a Galp mantém 40% da licença PEL 83, onde está localizado o promissor campo Mopane, ao lado da TotalEnergies, que também detém 40%. A estatal namibiana Namcor e a empresa Custos completam o consórcio com 10% cada. A TotalEnergies assume ainda a operacionalização da PEL 83 e compromete-se a cobrir metade dos custos de exploração, avaliação e desenvolvimento do campo Mopane.

Além disso, a Galp adquire 10% na PEL 56 onde se situa a descoberta de Venus e 9,4% na PEL 91, licenças igualmente operadas pela TotalEnergies e com participação da QatarEnergy e outros parceiros.

Galp reforça exposição a dois dos maiores ativos da Namíbia

Em conferência de imprensa, a co-CEO da Galp, Maria João Carioca, justificou a parceria destacando que a empresa “ficou com exposição aos dois maiores recursos descobertos até hoje na Namíbia — Venus e Mopane”. “É absolutamente essencial ter um operador altamente credível e com solidez financeira para avançar com este investimento ao ritmo certo”, afirmou.

A entrada da TotalEnergies permite à Galp reduzir significativamente o risco financeiro e as exigências de capital. O desenvolvimento de campos em águas ultra-profundas pode exigir investimentos entre 10 a 12 mil milhões de euros ao longo de uma década, até à produção comercial.

Mercado reage com volatilidade

A sessão bolsista de terça-feira foi marcada por forte pressão vendedora, com o volume de negociação a superar os 11 milhões de ações, muito acima da média de 1,59 milhão dos últimos três meses. Analistas apontam que a reação negativa veio sobretudo de investidores de curto prazo, que esperavam uma entrada mais rápida de caixa.

“Não trocamos cash por valor”, reagiu Carioca, sublinhando que o foco da Galp é uma visão de longo prazo. O seu colega de liderança, João Diogo Silva, acrescentou: “Este é um caminho longo, com volatilidade. Quem esperava benefícios imediatos provavelmente ficou menos entusiasmado”.

Próximos passos e cronograma

A campanha de exploração e avaliação na PEL 83 deverá arrancar nos próximos dois anos, com a perfuração de pelo menos três poços. A Galp estima que o campo Venus possa iniciar a produção até 2030, no melhor cenário, seguido por Mopane dois a três anos depois.

O desenvolvimento da área de Venus exigirá um investimento estimado em 11 mil milhões de dólares, incluindo a construção de um navio-plataforma (FPSO) com capacidade para 160 mil barris por dia. A decisão final de investimento deverá ser tomada em 2026, ano em que se espera também a aprovação do acordo pelas autoridades namibianas, reguladores e parceiros.

Potencial gigantesco para a indústria petrolífera

A Galp já revelou que o campo de Mopane pode albergar até 10 mil milhões de barris equivalentes de petróleo, o que o tornaria uma das maiores descobertas mundiais da última década. Desde 2012, a empresa realizou oito poços de exploração e avaliação na Namíbia, incluindo cinco perfurados desde dezembro de 2023.

Nova configuração das participações na Namíbia

Com o novo acordo, o mapa societário na Namíbia passa a ser o seguinte:

  • PEL 83: Galp (40%), TotalEnergies (40%, operadora), Namcor (10%), Custos (10%)
  • PEL 56: TotalEnergies (35,25%, operadora), QatarEnergy (35,25%), Galp (10%), Namcor (10%), Impact (9,5%)
  • PEL 91: TotalEnergies (33,085%, operadora), QatarEnergy (33,025%), Namcor (15%), Galp (9,39%), Impact (9,5%)

Fonte: Jornal Económico

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