A Ghassist, empresa angolana de assistência em terra (handling), considera “humilhantes” as recentes declarações do ministro dos Transportes, Ricardo de Abreu, sobre os motivos da sua exclusão do novo Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto (AIAAN). Fonte da empresa garante que as verdadeiras razões não foram reveladas pelo governante.

Ricardo de Abreu justificou publicamente a decisão como sendo de natureza política e estratégica, visando atrair operadores de maior prestígio internacional. “A Ghassist, ao longo dos 30 anos, não saiu de Luanda. Temos espaços para crescer, tem espaço para continuar a sua atividade. O aeroporto 4 de Fevereiro não vai deixar de funcionar, então precisamos ter lá um prestador de serviço”, afirmou o ministro.

Questionado sobre a ausência de concurso público para a escolha dos prestadores no AIAAN, Ricardo de Abreu foi categórico: “Não foi preciso ter concurso. A Ghassist está no 4 de Fevereiro e nós colocamos dois novos operadores no Novo Aeroporto para haver opções. Foi uma decisão política e conseguimos atrair os grandes parceiros de referência nesta matéria.”

O ministro comparou ainda o impacto da presença de operadores internacionais: “Um aeroporto em Angola dizer que tem um operador de serviços chamado Menzies é uma coisa, e que tem a Ghassist é outra.” Recomendou à empresa angolana que manifeste interesse em operar no Aeroporto da Catumbela, caso pretenda expandir a sua atuação.

Empresa denuncia “desprezo ao mérito nacional”

Fonte da Ghassist, que preferiu o anonimato, rejeitou veementemente as justificações oficiais, classificando as palavras do ministro como uma “humilhação dos quadros angolanos” e demonstração de “desprezo profundo pelo mérito nacional”.

A mesma fonte recordou que a Ghassist foi fundamental para garantir o arranque das operações no novo aeroporto, antes de ser afastada. “Quando o Novo Aeroporto precisava de arrancar, foi a Ghassist que garantiu o suporte, antes de ser descartada”, sublinhou.

Contrariando a narrativa do Governo, a empresa alega que a exclusão faz parte de “uma estratégia para a transferência de dinheiro para fora do país”. Segundo a fonte, as novas empresas aumentaram os preços dos serviços às operadoras de 6 mil para 8 mil dólares.

Acusações de corrupção e irregularidades

A fonte foi mais longe e apontou alegados “esquemas” de corrupção que “obrigam” empresas a subornar indivíduos supostamente ligados ao Ministério dos Transportes. A Ghassist terá sido excluída precisamente por não aceitar participar nessas práticas, segundo a mesma versão.

Entre as irregularidades denunciadas, a fonte questionou a forma como a Aviapartner obteve licença antes de regularizar a sua situação em Angola, acrescentando que as empresas beneficiadas não dispunham de capacidade técnica, tendo sido obrigadas a contratar quadros da Ghassist.

Operação no 4 de Fevereiro pode não ser sustentável

A Ghassist continuará a operar no Aeroporto 4 de Fevereiro, mas alerta que a atividade pode não ser economicamente viável, uma vez que os voos protocolares não têm a mesma regularidade dos voos comerciais.

A empresa mantém no ativo mais de 400 trabalhadores que permaneceram na estrutura, após parte dos mais de 800 funcionários terem sido contratados pelas duas novas operadoras do AIAAN.

TAAG deve 20 milhões de dólares à Ghassist

A Ghassist, que conta com a participação de 16% da TAAG e 6% da SGA (Sociedade de Gestão e Exploração Aeroportuária) no seu capital social, reivindica uma dívida de 20 milhões de dólares da companhia aérea nacional.

A empresa garante que só manterá operações enquanto a TAAG não liquidar o valor em dívida, elevando a pressão sobre a transportadora num momento de reestruturação financeira.

Fonte: Valor Economico

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