Em um movimento que surpreendeu o mercado e levanta questões sobre critérios de priorização, o Governo de Angola liquidou, no ano passado, as dívidas totais que mantinha com a Camarufi e o Grupo Carrinho, empresas nacionais que juntas somavam mais de 167 mil milhões de kwanzas em atrasados – valores que, curiosamente, não constavam do plano de pagamentos elaborado para 2024.

A confirmação da liquidação surge com base na atualização do stock de dívida pública referente ao início do exercício económico de 2025, bem como em fontes próximas ao processo, que afirmaram sob condição de anonimato: “As dívidas foram de facto pagas.”

A Camarufi, uma das maiores credoras do Estado, tinha dois créditos reconhecidos: um de 137,151 mil milhões de kwanzas por fornecimentos ao Estado-Maior General entre 2020 e 2021, e outro de 2,101 mil milhões de kwanzas ao Ministério da Indústria e Comércio, datado de 2014. O maior dos valores foi integralmente quitado, enquanto o mais antigo permanece por saldar.

Já o Grupo Carrinho, cuja dívida de 30 mil milhões de kwanzas estava ligada a contratos com o Ministério do Interior em 2021, viu seu crédito totalmente liquidado. Questionado sobre os detalhes, o Ministério das Finanças não se pronunciou até o fechamento desta edição. Já uma fonte ligada ao grupo empresarial alegou impossibilidade de esclarecimentos por questões contratuais, especialmente por envolver órgãos de defesa e segurança.

Prioridades questionáveis: outras dívidas seguem em aberto

Enquanto Camarufi e Grupo Carrinho foram beneficiadas com pagamentos integrais, outras empresas nacionais com créditos significativos permanecem excluídas do plano de 2024 – e sem previsão de liquidação.

É o caso da Haiping Internacional, detida por empresários chineses e um cidadão angolano, que detém um crédito de mais de 43,757 mil milhões de kwanzas. Apesar de ser a segunda maior dívida de empresas nacionais no stock anterior, não foi incluída no programa de 2024 e segue sem pagamento.

Também aguardam há anos:

Américo Paquissi-Packeessy Comercial (19,826 mil milhões de kwanzas) por contratos com o Estado-Maior General (2013–2015);
Intercontinental Trading Company (10,238 mil milhões de kwanzas) ao Ministério da Saúde (2010–2018);
Arquidecor-Atelier de Projectos (7,814 mil milhões de kwanzas) ao Ministério do Ensino Superior.

Pagamentos programados: avanços parciais e desigualdades

Entre as empresas que constavam do plano de 2024, os resultados são mistos. A Loravi – Comércio, Indústria, Importação & Exportação, que tinha um crédito de mais de 4,025 mil milhões de kwanzas do Governo Provincial do Zaire, viu apenas 1,381 mil milhões pagos. O restante – cerca de 2,5 mil milhões – está previsto para 2025.

Em contrapartida, empresas como Hunuen Limitada e Morgasal, ambas credoras do Governo do Cunene, tiveram suas dívidas de cerca de 3 mil milhões de kwanzas cada totalmente saldadas, mesmo com montantes menores.

Dívidas externas seguem em destaque

A maior dívida do Estado angolano continua sendo a contraída com a CITIC Construction, empresa chinesa que, no stock anterior, tinha a receber mais de 1,156 mil milhões de dólares (equivalente a cerca de 958,365 mil milhões de kwanzas). Em 2024, estava previsto o pagamento de cerca de 193 milhões de dólares – valor que teria sido quase integralmente cumprido, segundo dados disponíveis.

Para 2025, o Governo programou o pagamento de 457 mil milhões de kwanzas, um aumento significativo face aos 332 mil milhões previstos para 2024, indicando um esforço contínuo, embora desigual, na gestão da dívida pública.

Transparência e critérios: demanda por clareza

A discrepância entre o que estava planeado e o que foi efetivamente pago levanta questões sobre os critérios de seleção das empresas beneficiadas. Enquanto algumas empresas fora do plano receberam na totalidade, outras com créditos reconhecidos e programados viram apenas parcelas quitadas.

Fonte: Valor Económico

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