O Governo da Índia está a negociar com os Estados Unidos uma autorização explícita que permita retomar as compras de petróleo à Venezuela, noticiou este sábado a agência espanhola EFE, citando fontes diplomáticas e do setor petrolífero.
Segundo as mesmas fontes, a Índia, terceiro maior consumidor mundial de petróleo, procura um “corredor seguro” que garanta a importação de barris venezuelanos sem risco de sanções norte-americanas. O objetivo é diversificar as fontes de crude pesado e reduzir a dependência do petróleo russo, cujas importações têm vindo a cair.
Queda nas importações russas abre espaço para alternativa venezuelana
Dados da consultora Kpler indicam que as compras indianas de crude russo caíram para 1,1 milhões de barris por dia nas três primeiras semanas de janeiro de 2026, contra 1,21 milhões em dezembro de 2025 e muito abaixo do pico de 2 milhões registado em meados do ano passado.
Embora refinarias estatais, como a Indian Oil Corp, tenham aumentado as compras russas para 470 mil barris diários aproveitando descontos, o gigante privado Reliance Industries não recebeu qualquer carregamento russo em janeiro.
Contacto ao mais alto nível desde a mudança política em Caracas
Na sexta-feira, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, recebeu uma chamada telefónica da presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez. Os dois líderes acordaram aprofundar a cooperação energética, num contacto público de alto nível inédito desde a operação militar norte-americana e a detenção de Nicolás Maduro.
Obstáculos logísticos e financeiros travam retoma imediata
Apesar da aproximação política, fontes do setor alertam que os primeiros carregamentos venezuelanos disponíveis estão a ser desviados para os Estados Unidos. A rota para o Texas é mais rápida (pagamento em cinco dias) e opera sob proteção de ordens executivas de Washington, enquanto os envios para a Ásia enfrentam incertezas devido a possíveis embargos de credores.
A refinaria Nayara Energy, tecnicamente preparada para processar o crude pesado venezuelano Merey, está bloqueada pela participação de 49,13% da russa Rosneft, tornando improvável uma autorização do Tesouro norte-americano.
Dívida histórica complica negociações
Outro entrave é a dívida de cerca de mil milhões de dólares (844 milhões de euros) em dividendos não pagos que empresas estatais indianas reclamam do anterior Governo venezuelano. Fontes diplomáticas sugerem que uma solução poderá passar por um acordo híbrido: parte do pagamento em numerário para aliviar a tesouraria de Caracas e adiamento da recuperação total dos dividendos para uma fase de maior estabilidade.
A Índia insiste junto dos EUA em mecanismos que garantam a chegada física do petróleo aos seus portos, evitando que o mercado norte-americano absorva a totalidade da oferta venezuelana disponível.
Fonte: Jornal Negócios
