O presidente da Associação Industrial de Angola (AIA), José Severino, manifestou preocupação com a crise no sector do cimento e criticou a forma como o processo de privatização das cimenteiras tem sido conduzido. Em entrevista, Severino alertou que entregar a importação de cimento a empresas não produtoras impede o investimento na capacidade produtiva nacional e perpetua a dependência externa.

Privatização da CIF sob crítica

José Severino questionou a demora na reactivação da Cimenteira do Bom Jesus e o processo de privatização conduzido pelo Instituto de Gestão de Activos e Participações do Estado (IGAPE). “Um activo parado é desemprego, é falta de contribuição fiscal, é falta de produção”, afirmou o líder da AIA.

Passados oito meses desde a privatização da CIF (Cimentos de Fábrica), a unidade ainda não entrou em funcionamento, e os vencedores do concurso ainda não efectuaram qualquer pagamento ao Estado. Severino apelou ao IGAPE para esclarecer publicamente a situação e garantir transparência no processo.

“Não estou a fazer presunção de que a empresa não tem capacidade, mas essa empresa tem que vir ao público mostrar que tem capacidade e, se não põe a trabalhar, tem que explicar porque não põe a trabalhar”, disse.

O presidente da AIA defendeu que a importação de cimento deveria ser atribuída às próprias cimenteiras, permitindo-lhes capitalizar e aumentar a capacidade produtiva. Segundo Severino, foi essa estratégia, implementada durante a gestão do ex-ministro das Finanças José Pedro de Morais, que permitiu acabar com a dependência da importação de cimento da China.

“Se você dá a importação de cimento ao comerciante, com certeza que ele não vai investir na indústria de cimento”, alertou, referindo-se às recentes autorizações de importação de 250 mil toneladas.

Problemas estruturais no sector

José Severino identificou vários problemas que afectam a produção nacional, incluindo a falta de fornecimento regular de fuel pela Sonangol e a ausência de macrogestão nos projectos industriais.

A Cimenfort, instalada em Catumbela, foi citada como exemplo das dificuldades do sector. A empresa não processa calcário, dependendo da compra de clínquer à FCKS (Fábrica de Cimento do Kuanza-Sul), que tem a sua capacidade comprometida pelo abastecimento de grandes obras como a barragem de Caculo Cabaça.

“Com todo o respeito que tenho por eles, fiquei surpreendido. E disse-lhes que não iria funcionar porque a FCKS só lhe vai fornecer se não tiver procura de cimento”, relatou Severino.

Impacto no emprego e na construção

O líder da AIA alertou para as consequências sociais da crise do cimento: “O grande prejuízo de não haver cimento é que não há construção e, sem construção, não há emprego. Com essa situação, o desemprego está a aumentar”.

Severino defendeu ainda que outros sectores industriais necessitam de macrogestão semelhante à que o cimento requer, citando problemas na siderurgia, onde milhares de toneladas de sucata foram exportadas, incluindo locomotivas, vagões e perfis de caminho de ferro.

Apelo às autoridades

O presidente da AIA apelou aos ministros da Indústria e da Economia para dedicarem maior atenção ao sector. “Cimento é um produto estratégico para o desenvolvimento de qualquer país. Sem cimento, o país fica um país de pés de barro”, concluiu.

A crise do sector do cimento, após anos de autossuficiência, levanta questões sobre a sustentabilidade da industrialização angolana e a necessidade de políticas coordenadas entre produção, importação e privatização de activos estratégicos.

Fonte: Valor Economico

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