A menos de três anos das eleições presidenciais de 2027, o Presidente da República, João Lourenço, revelou estar já a pensar na sua sucessão, com especial enfoque na juventude angolana. Durante uma entrevista entrevista à TVI/CNN Portugal, o chefe de Estado sublinhou a importância de preparar uma nova geração de líderes para conduzir os destinos do país.
“É minha obrigação ajudar a encontrar um substituto que faça igual ou melhor que eu”, declarou Lourenço, recordando que o antigo Presidente José Eduardo dos Santos assumiu o cargo aos 37 anos de idade. Esta afirmação marca um momento significativo na política angolana, onde a questão da sucessão presidencial ganha contornos cada vez mais definidos.
Eleições Autárquicas Travadas no Parlamento
Quanto às eleições autárquicas, há muito aguardadas pelos angolanos, o Presidente esclareceu que o processo encontra-se bloqueado na Assembleia Nacional devido a divergências sobre a implementação simultânea em todos os municípios do país. Lourenço mostrou-se optimista, acreditando que, uma vez resolvido o impasse parlamentar, as condições estarão reunidas para a realização deste importante exercício democrático.
Caso Isabel dos Santos: Justiça Independente
Relativamente ao mediático caso de Isabel dos Santos, filha do ex-Presidente José Eduardo dos Santos, João Lourenço rejeitou categoricamente as acusações de perseguição política. O chefe de Estado reafirmou a independência do poder judicial angolano.
“A sociedade não esqueceu e continua à espera que a justiça seja feita”, afirmou o Presidente, defendendo simultaneamente a presunção de inocência, mas sublinhando a necessidade de apurar todas as responsabilidades no âmbito dos processos judiciais em curso.
Reconciliação Nacional e Unidade do País
Sobre a reconciliação nacional após o conflito armado pós-Independência, Lourenço rejeitou veementemente a ideia de Angola ser um país profundamente dividido. “O país sempre foi uno e indivisível”, declarou, atribuindo os conflitos do passado a interferências externas durante o período da Guerra Fria.
Segundo a visão presidencial, as diferenças entre os movimentos de libertação – MPLA, FNLA e UNITA – reflectiam apenas visões políticas distintas sobre o futuro do país, não representando uma divisão territorial ou étnica profunda.
Na actualidade, Angola trabalha para consolidar o seu sistema democrático. O Presidente defendeu o direito constitucional dos cidadãos ao protesto pacífico, mas fez questão de classificar os actos de vandalismo, como os registados durante as manifestações contra o aumento do preço dos combustíveis, como crimes que devem ser punidos pela lei.
Lourenço destacou a necessidade de proteger a ordem pública, equilibrando o exercício dos direitos fundamentais com a manutenção da paz social.
Relações com Portugal e Nova Lei dos Estrangeiros
Sobre as relações bilaterais com Portugal, o Presidente angolano abordou a polémica gerada pela nova Lei dos Estrangeiros portuguesa, que tem criado tensões no seio da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).
Reconhecendo a soberania de Portugal para legislar sobre imigração, Lourenço apelou a um tratamento justo para os imigrantes lusófonos, recordando a história da emigração portuguesa pelo mundo.
“O mínimo que exigimos é que Portugal não trate os imigrantes de forma pior do que os portugueses foram tratados nos países que os acolheram”, declarou o chefe de Estado angolano.
Apesar das divergências pontualmente registadas, o Presidente reafirmou o compromisso inabalável de Angola com a CPLP, defendendo a livre circulação de pessoas como um dos pilares fundamentais desta comunidade lusófona.
Ao encerrar as suas declarações, João Lourenço reiterou que Angola representa um projecto nacional em constante evolução e desenvolvimento. “Os países dos nossos sonhos são para ser construídos todos os dias”, afirmou, rejeitando qualquer tipo de saudosismo relativamente ao período colonial e destacando os significativos avanços alcançados pelo país nas últimas décadas.
O Presidente anunciou que o balanço oficial dos 50 anos de Independência de Angola será apresentado no próximo mês de Novembro, incluindo dados comparativos que ilustram o progresso económico, social e político do país desde 1975.
