O projecto habitacional Luanda Leste, um dos mais ambiciosos para a classe média angolana, enfrenta uma crise sem precedentes devido a uma acirrada disputa entre os seus sócios, de nacionalidades angolana e brasileira. Em causa está a alegada retirada de mais de mil milhões de kwanzas das contas da empresa para benefício próprio,ස

Conflito societário e má gestão
A Afrincorp, empresa detentora do Luanda Leste, foi criada em 2009 por Celestino Domingos João, mas, segundo fontes próximas ao processo, o verdadeiro controlo sempre esteve com o brasileiro Edgar Roberto Bellotti. Desde 2020, mudanças na estrutura accionista intensificaram os conflitos, com a entrada de novos sócios, como Fernando Montenegro Lima, da Seedcon, e a angolana KC & JM, LDA. Actualmente, a sociedade é composta por Fernando Lima (49%), Marcelo Brunoro (21%) e Herlander Madaleno (30%), com Camila Soares de Oliveira como gerente.

Os problemas começaram em 2020, coincidindo com a venda da Afrincorp à Seedcon e à KC & JM. Clientes, incluindo grandes empresários e governantes, reportam incumprimentos no fornecimento de água e energia, atribuídos à má gestão. Documentos consultados pelo Valor Económico revelam que, entre Dezembro de 2023 e Março de 2025, Fernando Lima transferiu 1,028 mil milhões de kwanzas para contas no Brasil, incluindo para a sua esposa, Camila Soares de Oliveira, sem investir na manutenção ou infra-estruturas do projecto.

Escalada da disputa e intervenção judicial
A tensão entre os sócios culminou na tentativa de Fernando Lima recuperar o acesso às contas bancárias da empresa, transferidas para o Banco Valor, pertencente à família Madaleno, para evitar supostos desvios. Uma assembleia-geral em 2024, com votação favorável a Lima e Brunoro, não foi reconhecida pelos cartórios angolanos, devido à falta de assinatura do sócio angolano Herlander Madaleno. O Banco Valor também recusou liberar o acesso, mantendo Camila como gerente.

Lima alega bloqueios nos cartórios e bancos, atribuindo influência à família Madaleno, enquanto Herlander Madaleno e Camila justificam a transferência das contas como medida para proteger os fundos da empresa. A disputa já chegou à Procuradoria-Geral da República (PGR) e ao Serviço de Investigação Criminal (SIC), com possibilidade de resolução extrajudicial cada vez mais remota.

Relação com a burla do Bem Morar
Fernando Lima, também ligado ao fracassado projecto Bem Morar, é acusado por Herlander Madaleno de práticas semelhantes no Luanda Leste. Lima reconhece o envolvimento no Bem Morar, mas como prestador de serviços de venda, e justifica os mais de 40 processos judiciais que enfrenta no Brasil como resultantes dos bloqueios de contas.

Impacto nos clientes
Com cerca de 4 mil clientes afectados, o futuro do Luanda Leste permanece incerto. A falta de consenso entre os sócios e a ameaça de arresto das participações de Lima por instituições financeiras, como a Galapagos Recebíveis Imobiliários, agravam a instabilidade do projecto.

Fonte: Valor Económico

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