Na noite desta terça-feira (3), durante um evento de grande simbolismo económico e político no Dubai, foi oficialmente proclamada a Cimeira Global de Investimento em África (CGIA) uma nova plataforma continental com o objetivo estratégico de mobilizar investimento global para impulsionar o desenvolvimento sustentável do continente.
A iniciativa, liderada pelo ex-presidente do Banco Africano de Desenvolvimento, Dr. Akinwumi Adesina, e pela especialista internacional em governança e investimentos Margery Krause, foi apresentada como uma resposta concreta ao imperativo africano de transformar activos soberanos em oportunidades de crescimento inclusivo.
O anúncio histórico contou com a presença de líderes africanos influentes, entre eles os Presidentes da Tanzânia, Samia Suluhu Hassan, e do Gana, John Mahama, além de representantes de Moçambique e de instituições financeiras globais. Mas foi o Chefe de Estado angolano, João Lourenço, quem assumiu papel central ao confirmar que a primeira edição da cimeira acontecerá ainda este ano em Luanda, reforçando o posicionamento de Angola como polo emergente de negócios e integração regional.
Uma Nova Ponte entre África e o Mundo
Num discurso claro, visionário e alinhado com os pilares da Agenda 2063 da União Africana, o Presidente João Lourenço afirmou que “África está pronta para explorar novas formas de atracção de capital global” e destacou o momento como um “grande mudança de paradigma” na forma como o continente se relaciona com os mercados internacionais.
“Estamos a testemunhar uma grande mudança de paradigma sobre como atrair investimento para África”, declarou Lourenço, sublinhando a necessidade de os países africanos monetizarem activos naturais, energéticos e infraestruturais com responsabilidade e transparência.
O Chefe de Estado enalteceu a liderança de Adesina, com quem se reuniu em Outubro de 2025 em Luanda, quando a ideia começou a ganhar corpo. Na ocasião, Angola comprometeu-se formalmente a apoiar a criação da CGIA, não apenas como país anfitrião, mas como actor-chave na construção de um quadro institucional confiável para os investidores.
Angola como Case Study de Reformas Estruturais
Durante a sua intervenção, o Presidente fez questão de apresentar Angola como exemplo de reformas bem-sucedidas. Desde 2019, mais de 100 empresas estatais foram privatizadas, abrindo sectores estratégicos como energia, transportes e finanças a capitais privados.
Além disso, o país implementou a Janela Única de Investimento, modernizou o seu quadro legal e reforçou mecanismos de protecção ao investidor passos cruciais para melhorar o clima de negócios.
Lourenço destacou também os potenciais do país:
- Liderança na produção de petróleo em África;
- Expansão acelerada das energias renováveis, com meta de 70% de matriz limpa até 2027;
- Sector mineiro competitivo, com diamantes, ouro e minerais críticos;
- Agricultura e agronegócio com incentivos fiscais específicos;
- Infra-estruturas estratégicas, como o Corredor do Lobito, que liga o interior ao Atlântico, e novas concessões portuárias e aeroportuárias.
“Trabalhemos juntos para construir um futuro que proporcione impacto duradouro para os nossos povos e para o mundo”, concluiu, convidando todos os presentes a visitarem Angola ainda em 2026.
Um Continente no Centro do Jogo Geoeconómico
A CGIA surge num contexto de reconfiguração geopolítica global, onde África detém cerca de 40% das reservas mundiais de minerais raros essenciais para a transição energética — como cobalto, lítio e terras raras. O gás natural do continente também é apontado como recurso estratégico para a segurança energética mundial.
Com esta cimeira, o continente busca não apenas captar recursos, mas fazê-lo em moldes de parceria equilibrada, com regras claras, contratos respeitados e retornos justos para todas as partes.
A organização já anunciou que a cimeira em Luanda reunirá chefes de Estado, ministros das Finanças, representantes de bancos multilaterais, fundos soberanos e grandes gestoras internacionais. O foco estará na criação de portfólios de baixo risco a partir de activos públicos africanos, facilitando o acesso ao capital sem comprometer a soberania dos Estados.
