Uma operação conjunta do Serviço de Investigação Criminal (SIC) e do Serviço de Migração e Estrangeiros (SME), realizada a 19 de Julho, expôs a gravidade da situação. No Hotel Bay Day, localizado no complexo, foram detidos 68 cidadãos estrangeiros, maioritariamente chineses e vietnamitas. As autoridades encontraram jovens entre 17 e 23 anos em condições de exploração sexual, privadas de liberdade e com documentos retidos. Apreenderam ainda 52 passaportes, cartões de residência, seringas e materiais ligados ao consumo de drogas, além de indícios de lenocínio, tráfico humano e escravidão moderna.

Jack Huan: O Intocável?

Jack Huan, figura central deste império, é descrito como o homem que “tudo sabe e tudo controla”. Em 2020, foi detido por tráfico de drogas, falsificação de dólares e violação de uma menor de 14 anos, mas permaneceu apenas um mês na cadeia. A pergunta que ecoa é: quem protege este homem? Fontes do SIC apontam que a rede criminosa tem ramificações no Vietname, na China e em Angola, envolvendo agências de “recrutamento”, intermediários locais e alegados funcionários públicos corruptos.

Inaugurada como promessa de dinamização económica, a Cidade da China tornou-se um território onde as leis angolanas parecem ter pouco alcance. Com lojas, hotéis, alojamentos e áreas de difícil fiscalização, o complexo opera como um ecossistema paralelo. Testemunhas relatam um ambiente de controlo rigoroso, onde “ninguém entra sem que saibamos o que carrega na mochila”, conforme descrevem os próprios funcionários.

Não é a primeira vez que a Cidade da China está sob escrutínio. Desde 2023, o SIC tem desmantelado redes semelhantes no local, com denúncias de prostituição forçada, cárcere privado, trabalho escravo e subornos a autoridades. Em Julho de 2024, a Operação Trabalho Digno, conduzida pela Inspecção-Geral do Trabalho (IGT) e pelo Ministério da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social, revelou condições desumanas em mais de 400 lojas. Trabalhadores enfrentavam jornadas de 16 horas diárias, sem contratos, com salários abaixo de 30 mil kwanzas mensais e sem acesso a assistência médica. Muitos dormiam em armazéns ou na rua por falta de transporte.

Vozes da Escravidão Moderna

Os relatos dos trabalhadores são chocantes. Damião Simão, segurança há quatro anos, descreve um sistema opressivo: “Quem reclama, perde o emprego. Os chefes dizem que há sempre outro para nos substituir.” Euclides Fernando, ajudante de loja, acrescenta: “Dormimos em cima de caixas. Se estás doente, descontam do salário como se fosses culpado.” Estima-se que mais de 600 angolanos estejam em condições de trabalho forçado ou semi-escravidão no complexo.

Apesar das sucessivas operações, nenhum gestor de topo foi responsabilizado, e nenhuma loja perdeu a licença de operação. A falta de processos-crime contra os líderes da rede levanta suspeitas de cumplicidade ou omissão institucional. Angola permanece no nível 2 do Relatório Global de Tráfico de Pessoas, indicando esforços insuficientes para combater o problema.

Organizações como a Associação Justiça e Dignidade Social e o Projecto Esperança exigem medidas urgentes:

  • Revogação das licenças de exploração comercial da Cidade da China;

  • Responsabilização criminal de gestores e intermediários;

  • Repatriamento digno das vítimas estrangeiras e protecção das vítimas angolanas.

Enquanto Luanda enfrenta crescentes casos de violações sexuais a menores e o tráfico de pessoas se expande para zonas como Kikuxi, Golf II e Zango, as estruturas de fiscalização parecem capturadas ou silenciadas. A pergunta persiste: quem sustenta este sistema? Quem protege Jack Huan? E quem se beneficia do silêncio?

A Cidade da China é mais do que um centro comercial – é um símbolo de impunidade que desafia as autoridades e a sociedade angolana. Até quando?

Fonte: Lil Pasta

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