Os meios de pagamento digitais consolidaram-se em 2025 como a principal forma de movimentação financeira na Rede Multicaixa, representando quase metade de todas as transacções realizadas no País. Segundo cálculos do jornal Expansão com base em dados da Empresa Interbancária de Serviços (EMIS), os canais digitais Multicaixa Express, ordens de pagamento H2H, compras online e pagamentos por QR Code movimentaram 22,7 biliões Kz, o equivalente a 49,3% dos 46,0 biliões Kz transaccionados no sistema.
Este volume registou um crescimento de 56,5% face aos 14,5 biliões Kz de 2024, confirmando a transição irreversível dos angolanos para soluções digitais, num contexto em que cerca de 65% da população tem menos de 25 anos.
MCX Express domina o cenário digital
O canal mobile interbancário Multicaixa Express foi o grande motor desta transformação, responsável por 19,7 biliões Kz (87% do total digital) em mais de 2.141 milhões de operações — um aumento de 56% relativamente a 2024. Desde o início de 2025, o MCX Express tornou-se o canal preferido dos utilizadores, superando largamente, em conjunto, as operações realizadas em Caixas Automáticos (ATM) e Terminais de Pagamento Automático (TPA).
As ordens de pagamento host-to-host (H2H), que ligam directamente sistemas de bancos e empresas, contribuíram com cerca de 10% do volume digital.
Os pagamentos por QR Code, cujo registo começou em Abril de 2024 (três meses após o lançamento pela EMIS), saltaram de 11,7 mil milhões Kz em 2024 para 572,9 mil milhões Kz em 2025 — um crescimento quase 50 vezes superior.
Já as compras online, processadas através das Gateways de Pagamentos Online (GPO), atingiram 144,1 mil milhões Kz, mais 167% que no ano anterior, reflectindo o avanço do comércio electrónico em Angola, em linha com a tendência global de reposicionamento dos centros comerciais físicos como espaços de lazer.
Desafios persistem apesar do avanço
Apesar do crescimento acelerado, limitações estruturais continuam a condicionar uma expansão ainda mais rápida: taxa de penetração móvel de 75 por cada 100 habitantes, bancarização inferior a 35% e constrangimentos na conectividade à internet.
Quais os benefícios da digitalização?
Especialistas destacam que a migração para o digital vai além da conveniência. Paulo Araújo, director-geral da Wiconnect, sublinha que os meios digitais criam uma nova classe de activos intangíveis: os dados transaccionais.
“A digitalização permite desenvolver modelos de risco ajustados à realidade angolana, viabilizando seguros paramétricos e produtos de crédito dinâmico que seriam impossíveis num sistema dominado pelo numerário”, afirma Araújo. Acrescenta ainda que a inclusão no sistema formal liberta liquidez, aumenta a base de depósitos bancários e pode reduzir o custo de financiamento, transformando a inclusão digital num motor de crescimento económico.
A desmaterialização do dinheiro físico também reduz custos logísticos de custódia, transporte e reposição de notas, permitindo redireccionar recursos para investimento em infraestrutura tecnológica.
Rumo a um futuro sem cartões físicos
A EMIS prevê a progressiva eliminação da dependência do cartão físico. Eduardo Bettencourt, administrador da empresa, afirmou ao Expansão que “o lançamento do MCX Express e da GPO foram os primeiros passos deste programa”. Hoje, todas as operações da rede podem ser realizadas sem cartão físico, com a operacionalização de cartões 100% digitais em fase final e a desmaterialização do PIN já concluída.
A visão da EMIS aponta para instrumentos de pagamento instantâneos e “invisíveis”, como o futuro KWiK. “O consumidor angolano exige rapidez, conveniência e segurança. Estamos comprometidos em liderar esta transformação, investindo fortemente em resiliência da infraestrutura e cibersegurança, com níveis de disponibilidade próximos dos 99,99% e certificações internacionais como o Tier III do Uptime Institute”, conclui Bettencourt.
Fonte: Jornal Expansão
