A escalada de tensões no Médio Oriente fez disparar o preço do crude nas últimas 48 horas, com o Estreito de Ormuz — rota por onde circulam 20% do petróleo mundial — sob ameaça logística. Para Angola, cuja economia depende fortemente das receitas petrolíferas, o cenário abre uma janela de alívio fiscal imediato, mas o economista Nataniel Fernandes adverte: sem gestão prudente, o país desperdiçará mais uma oportunidade de consolidar ganhos estruturais.
A volatilidade nos mercados internacionais de energia, impulsionada pelo conflito envolvendo Irão, Estados Unidos e Israel, colocou em risco a navegação pelo Estreito de Ormuz, artéria crítica para o abastecimento global. Com o barril a subir, Angola — que exporta mais de 90% do seu crude — vê aumentarem as divisas e as receitas fiscais directamente ligadas à produção petrolífera.
Em entrevista à DW África, Nataniel Fernandes destacou que, apesar do impacto positivo imediato no balanço fiscal, “o petróleo é o motor da nossa economia, mas não podemos confundir um pico de guerra com estabilidade estrutural”. O especialista sublinhou que, historicamente, estes ciclos de alta são efémeros: “A guerra vai passar, os preços vão normalizar, e se não soubermos gerir este momento, ficamos exactamente onde estávamos antes — ou pior”.
Para Fernandes, a estratégia deve assentar em três pilares: primeiro, provisionar parte significativa das receitas extraordinárias para criar um colchão contra futuras quedas de preço; segundo, priorizar o abatimento da dívida pública em moeda estrangeira, focando nos contratos mais onerosos; terceiro, direccionar investimentos para sectores produtivos internos — indústria transformadora, agricultura e capital humano — em vez de expandir despesas correntes de carácter permanente.
O economista reconheceu ainda o desafio estrutural da produção angolana, que se mantém abaixo do milhão de barris diários. “Não vamos aproveitar plenamente este boom de preços por limitações na capacidade de extração”, admitiu, defendendo maior soberania na prospecção através de capital angolano e parcerias estratégicas que reduzam a dependência de operadores externos.
Quanto ao impacto social, Fernandes foi cauteloso: “Se gerirmos bem estas receitas, o kwanza pode ganhar estabilidade cambial e haver espaço para investimentos em formação profissional ou infra-estruturas educativas. Mas gastar receitas temporárias em despesas permanentes seria um erro grave — o cidadão comum só beneficiará se esta janela for usada com disciplina fiscal”.
Fonte: DW África
