A Recredit voltou a registar um write-off (eliminação contabilística de activos) em 2025, o segundo desde a sua criação, elevando para mais de 55 mil milhões de kwanzas o montante declarado irrecuperável. A baixa, no valor de 3,02 mil milhões de kwanzas, representa 1% da carteira total e resulta de um processo relacionado com uma empresa pública extinta, segundo revelou a instituição no relatório de recuperação referente ao ano passado.
Segundo write-off em três anos agrava cenário de perdas
Criada em 2016 para recuperar o crédito malparado do Banco de Poupança e Crédito (BPC), a Recredit adquiriu duas carteiras num total de 476 processos avaliados em 1,2 biliões de kwanzas, pelos quais pagou mais de 288 mil milhões de kwanzas.
O primeiro write-off foi inscrito em 2022. Na altura, o presidente do conselho de administração da Recredit, Valter Barros, admitiu que outras carteiras poderiam ter o mesmo tratamento, justificando que existem processos “tão frágeis em termos de garantias que levá-los a tribunal pode não compensar”.
Sem revelar a identidade do devedor, o gestor informou tratar-se da dívida de uma empresa pública entretanto extinta, cujo processo de liquidação decorre no Instituto de Gestão de Ativos e Participações do Estado (Igape). A massa liquidatária revelou-se, porém, insuficiente para satisfazer todas as obrigações, deixando a Recredit — e outras instituições bancárias — entre os credores sem reembolso.
Taxa de recuperação revista em baixa
Desde o início efectivo das operações, em 2020, a Recredit recuperou 139,13 mil milhões de kwanzas. No entanto, em 2023, a instituição reviu em baixa a expectativa de recuperação, reduzindo-a de 35% para 23% do valor total de exposição, então avaliado em cerca de 1,249 biliões de kwanzas.
Com essa revisão, a Recredit passou a estimar uma recuperação de aproximadamente 288 mil milhões de kwanzas, abaixo dos anteriores 437,15 mil milhões previstos. A segunda baixa contabilística confirma a pressão crescente sobre a taxa real de recuperação e reforça os sinais de prudência quanto ao valor efectivamente recuperável do crédito transferido pelo BPC.
Custos operacionais em alta pressionam rentabilidade
Os números revelam um quadro operacional cada vez mais pressionado. Em 2025, a Recredit gastou 6,324 mil milhões de kwanzas para recuperar 30,781 mil milhões, fixando o rácio custo-recuperação em 21%, acima dos 20% registados no ano anterior — quando a despesa foi de 6,166 mil milhões de kwanzas para uma recuperação de 31,189 mil milhões.
Desde 2021, ano a partir do qual os relatórios estão disponíveis, apenas em 2023 se verificou uma melhoria face ao exercício anterior, com o rácio a recuar de 17% para 15%.
O melhor desempenho continua a ser o de 2021, quando a instituição recuperou 21,867 mil milhões de kwanzas com uma despesa de 2,194 mil milhões, fixando o rácio em 10% — o nível mais baixo e, portanto, o mais eficiente em termos operacionais.
Despesas gerais crescem acima das receitas
As despesas gerais da Recredit mantiveram trajectória ascendente. Em 2025, totalizaram 75,180 mil milhões de kwanzas, face aos 70,386 mil milhões registados em 2024, o que representa um crescimento de 6,8%.
Nos dois exercícios anteriores, as despesas situaram-se em 44,537 mil milhões (2022) e 55,833 mil milhões de kwanzas (2023), confirmando uma tendência consistente de expansão da estrutura de custos.
Em sentido oposto, embora num ritmo menos expressivo em termos absolutos, as receitas aumentaram de 8,430 mil milhões de kwanzas, em 2024, para 9,631 mil milhões de kwanzas em 2025.
Fonte: Valor Económico
