O antigo vice-presidente da República, Manuel Domingos Vicente, regressou a Luanda há cerca de três semanas num movimento silencioso que já mobiliza conversas nos bastidores do poder, num momento em que o MPLA inicia discussões internas sobre a sucessão presidencial rumo às eleições gerais de 2027.
Segundo fontes políticas e institucionais, o regresso do ex-governante decorreu com elevado grau de discrição, sem anúncio público ou agenda oficial divulgada. Desde então, Vicente terá mantido encontros privados com personalidades influentes ligadas ao aparelho de Estado, ao partido no poder e a sectores empresariais com ligações à elite política nacional.
O antigo dirigente reestabeleceu residência no bairro do Miramar, zona nobre da capital, onde a sua propriedade passou recentemente por obras de reabilitação — incluindo renovação do mobiliário e reforço dos sistemas de segurança — indícios interpretados por observadores como sinal de uma permanência prolongada no país.
O timing do seu regresso coincide com um período de reconfiguração interna no MPLA. Com o mandato constitucional do Presidente João Lourenço a aproximar-se do fim, intensificam-se, ainda que de forma contida, as conversas sobre os cenários de transição de poder no partido que lidera Angola desde a independência. Neste contexto, o nome de Vicente surge em algumas correntes como possível figura de consenso, dada a sua trajectória tecnocrática — marcada pela gestão no sector petrolífero — e menor vinculação a disputas partidárias tradicionais.
Fontes próximas ao ex-vice-presidente, contudo, indicam que ele terá manifestado inicialmente relutância em assumir protagonismo no processo sucessório, sugerindo até a indicação de outra personalidade para o papel. Apesar disso, os contactos políticos mantêm-se activos, mantendo em aberto a avaliação de diferentes cenários.
Analistas destacam ainda o histórico de distanciamento entre Vicente e o antigo Presidente José Eduardo dos Santos nos últimos anos do seu mandato, decorrente de suspeitas de desalinhamento político. Para alguns sectores, essa ruptura relativa poderia representar um factor de confiança adicional junto da actual liderança. Contudo, há também cautela dentro do aparelho: parte da direcção recorda que Vicente nunca rompeu completamente com certos círculos do anterior regime, mantendo, por exemplo, laços indirectos com redes ligadas à empresária Isabel dos Santos.
As próximas reuniões do Bureau Político e do Comité Central do MPLA deverão funcionar como termómetros importantes para perceber a evolução destas dinâmicas. Enquanto isso, o regresso silencioso de Manuel Vicente devolve ao centro do debate político uma figura cujo papel futuro dependerá não apenas da sua vontade, mas do equilíbrio de forças que se desenhará nos próximos meses — num momento em que Angola se prepara para um dos ciclos eleitorais mais decisivos da sua história recente.
Fonte: Angola24Horas

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