Os investidores angolanos no exterior repatriaram para o País 148,7 milhões USD em lucros nos primeiros nove meses de 2025, um aumento de 557% face ao período homólogo. Trata-se do valor mais alto desde que há registos no Banco Nacional de Angola (BNA). Apesar do crescimento recorde, os lucros expatriados pelas empresas estrangeiras em Angola continuam a ser 15 vezes superiores aos valores que os investidores nacionais enviam de volta.
Recorde histórico de repatriamento
De acordo com cálculos baseados no relatório sobre a Balança de Pagamentos do BNA, o montante repatriado nos primeiros nove meses do ano representa um aumento de 126 milhões USD comparativamente aos 22,6 milhões USD registados no mesmo período de 2024.
Este é o valor mais elevado de entrada de rendimentos desde que existem registos no banco central, sinalizando uma mudança significativa nos fluxos financeiros entre Angola e o exterior.
Dúvidas sobre dividendos da Sonangol
O BNA não fornece detalhes sobre a origem destes rendimentos, o que dificulta a identificação das empresas ou particulares que efectivamente receberam estes valores. A questão dos dividendos da Sonangol provenientes das suas participações em empresas portuguesas volta a ganhar destaque.
A petrolífera angolana é a segunda maior accionista do Millennium BCP, com 19,49% do capital, e detém participação indirecta na Galp através da Amorim Energia. Ambas as empresas distribuem dividendos anualmente, mas os valores não coincidem com as entradas de rendimentos primários registadas pelo banco central.
Em 2024, a Sonangol reportou dividendos de 47,2 mil milhões de kwanzas (cerca de 51,2 milhões USD) do BCP, enquanto a balança de pagamentos contabilizou apenas 27,9 milhões USD para todo o País. Para 2025, a Sonangol deverá receber aproximadamente 88 milhões de euros de dividendos do banco português referentes ao exercício de 2024.
Sinais positivos para a economia
O economista Wilson Chimoco atribui estes resultados à maturação de investimentos realizados no estrangeiro e à identificação de oportunidades de investimento interno mais atractivas. “A economia tem vindo a registar crescimento e estabilidade na macroeconomia, e isso transmite alguma confiança aos investidores”, afirmou.
Chimoco destaca ainda que, além da melhoria na balança corrente, há sinais de “melhoria na liquidez em moeda estrangeira no mercado e redução na pressão cambial”, embora a taxa de câmbio continue controlada pelo banco central.
Francisco Paulo aponta que o aumento pode reflectir maior confiança no mercado interno, possivelmente associado à estabilização cambial e à redução da inflação, que caiu para cerca de 16,5% em Novembro. “Essa melhoria pode ter tornado mais atractivo reinvestir no País, especialmente em sectores com potencial de crescimento, como construção, comércio e agro-indústria”, explicou.
Stock de investimento angolano no exterior
Actualmente, os angolanos têm investidos no exterior 5.405,7 milhões USD (stock de investimento directo), representando um aumento de 2% face a Dezembro de 2024. O valor mais elevado foi registado em 2018, quando o stock atingiu 6.069,5 milhões USD.
Vale recordar que durante vários anos o BNA apresentou dados inflacionados sobre o stock de investimento de angolanos no exterior, até que o FMI identificou erros no âmbito da X Missão de Assistência Técnica, realizada em Julho de 2018. Em 2017, por exemplo, os angolanos tinham investidos apenas 5,5 mil milhões USD em empresas no exterior, e não os 22 mil milhões USD reportados inicialmente pelo BNA.
Nos primeiros nove meses de 2025, o investimento directo angolano no exterior disparou 173%, passando de 29,4 milhões USD para 80,3 milhões USD, o valor mais alto dos últimos cinco anos.
Destinos preferenciais
No final do segundo trimestre deste ano, cerca de 42% do stock de investimento directo angolano no exterior estava concentrado em Portugal. Os paraísos fiscais das Maurícias (12%) e as Ilhas de Man (6%) surgem como segundo e terceiro destinos preferenciais.
Transferências para o exterior em queda
Em sentido inverso, as transferências de lucros para o exterior por parte de empresas estrangeiras caíram 28%, para 2.267,7 milhões USD nos primeiros nove meses do ano, menos 865,4 milhões USD em relação ao período homólogo.
Heitor Carvalho, director do Centro de Estudos da Universidade Lusíada, atribui esta redução simultaneamente à diminuição dos lucros das petrolíferas e às dificuldades de repatriamento enfrentadas por empresas fora dos sectores de petróleo e diamantes.
“Recentemente, ouvimos as queixas das empresas da aviação sobre a dificuldade em expatriarem os seus rendimentos. Isto pode ter algum efeito positivo de curto prazo na balança e na disponibilidade de divisas, mas tem um enorme efeito de longo prazo na atractividade de novos investimentos”, alertou.
Desequilíbrio persiste
Apesar dos avanços, existe uma diferença significativa entre os investimentos angolanos no exterior e os investimentos estrangeiros em Angola. Os lucros expatriados pelas empresas estrangeiras são cerca de 15 vezes superiores aos valores que os investidores nacionais repatriam.
Francisco Paulo considera que este dado revela a forte dependência da economia angolana de sectores dominados por multinacionais. “Embora seja natural que investidores estrangeiros queiram remunerar o capital aplicado, esta saída massiva de recursos limita a capacidade de retenção de riqueza no País”, observou.
“O desafio para Angola é criar condições que tornem o reinvestimento local mais atractivo do que a transferência para o exterior. Se não houver políticas eficazes para diversificar a economia e gerar valor interno, a balança continuará desequilibrada, com impacto negativo na criação de emprego e no crescimento sustentável”, concluiu.
Fonte: Jornal Expansão
