O jornalista e advogado angolano Teixeira Cândido foi alvo de uma operação de espionagem digital sofisticada em Maio de 2024, quando o seu telemóvel foi infectado com o *spyware* Predator após clicar num link malicioso recebido via WhatsApp. A descoberta, confirmada por peritos do Laboratório de Segurança da Amnistia Internacional em colaboração com as organizações Amigos de Angola e Defensores da Linha da Frente, marca o primeiro caso documentado publicamente de vigilância tecnológica dirigida a um profissional de comunicação social em Angola — num momento em que o país se prepara para as eleições gerais de Agosto de 2027.
A infecção ocorreu a 3 de Maio de 2024, ironicamente no Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Segundo relatório forense, Cândido recebeu uma mensagem de um número angolano que se identificava com um nome tradicional local e alegava representar estudantes interessados em debater desenvolvimento socioeconómico. Ao aceder ao link, o Predator instalou-se no dispositivo, permitindo acesso remoto ao microfone, câmara, contactos, mensagens e ficheiros pessoais. A infecção foi interrompida cerca de 24 horas depois, quando o jornalista reiniciou o aparelho.
“Antes de mais, precisamos de descobrir que entidades adquiriram estas ferramentas de espionagem”, afirmou Cândido em entrevista exclusiva concedida em Luanda ao Comité para a Protecção dos Jornalistas (CPJ). “Senti-me literalmente nu! É como se alguém que não conheço me tivesse despido em público. Não sei a que informação tiveram acesso, nem até que ponto partilharam as minhas conversas íntimas.”
O Predator integra o portefólio do Consórcio Intellexa, rede internacional de empresas de vigilância fundada pelo ex-oficial militar israelita Tal Dilian. Documentos vazados em Dezembro de 2025 — os chamados *Intellexa Leaks* — sugerem que colaboradores da empresa podem ter acesso directo aos dados recolhidos pelos seus clientes. Apesar das sanções impostas pelos Estados Unidos em 2024 contra Dilian e entidades ligadas à Intellexa, três nomes foram retirados da lista de restrições no final do ano passado, gerando preocupação entre defensores dos direitos humanos.
Para Carolina Rocha da Silva, gestora de operações do Laboratório de Segurança da Amnistia Internacional, o ataque a Cândido seguiu um padrão cuidadosamente orquestrado: “Foi um típico ataque de um clique. O remetente usou um número angolano, um nome tradicional e criou uma narrativa plausível para gerar confiança.”
Cândido, que presidiu ao Sindicato dos Jornalistas Angolanos até 2024 e actualmente apresenta programas na Rádio Essencial, suspeita que a vigilância esteja relacionada com a sua actuação sindical e defesa intransigente da liberdade de imprensa — e não apenas com o seu trabalho como comunicador. Recorda que, após as eleições de 2022, a sede do sindicato sofreu assaltos selectivos em que apenas equipamentos informáticos foram subtraídos. “Percebemos na altura que o interesse não era patrimonial, mas sim documental”, observa.
Num contexto de crescente pressão sobre a liberdade de expressão em Angola, especialistas alertam que ferramentas como o Predator representam uma ameaça existencial à democracia. “A vigilância mina a segurança física, digital e psicológica dos jornalistas. Mesmo tomando todas as precauções, fica sempre aquela sensação de insegurança”, desabafa Cândido.
O jornalista apela à mobilização internacional para identificar os responsáveis e exigir responsabilização. Enquanto isso, reforça a urgência de uma rede global de protecção: “Precisamos de nos unir contra os abusos, inclusive contra Estados, se necessário. Caso contrário, um dia acordaremos e não haverá mais jornalismo.”
Fonte: CPJ
