A TAAG – Linhas Aéreas de Angola encerrou o ano de 2024 mergulhada num profundo desequilíbrio financeiro, com um resultado líquido negativo de 134.212.063.458 kwanzas, equivalente a cerca de 154 milhões de dólares norte-americanos, segundo a taxa média cambial do período. O valor acentua a fragilidade da companhia aérea estatal, que mantém capitais próprios negativos e enfrenta sérias dúvidas quanto à sua viabilidade futura.
Os dados constam do relatório de auditoria independente emitido pela KPMG Angola, datado de 7 de Agosto de 2025, assinado pela perita contabilista Maria Inês Rebelo Filipe, ao qual o Imparcial Press teve acesso. O documento revela que, ao fim do exercício de 2024, os activos totais da empresa atingiram 815.087.366.521 kwanzas, mas os capitais próprios ficaram em –21.436.150.761 kwanzas, sinal inequívoco de uma situação patrimonial crítica.
A KPMG emitiu uma opinião com reservas, apontando falhas graves na gestão contabilística da empresa, especialmente na rubrica de existências. Foram detectadas discrepâncias entre os quantitativos registados nos sistemas e os inventariados fisicamente, bem como inconsistências nos valores unitários usados para avaliar materiais. Além disso, a auditora não conseguiu validar existências em trânsito no valor de 19,4 mil milhões de kwanzas, por falta de documentação comprovativa.
Essa limitação impediu a obtenção de provas suficientes sobre o montante total de 38,1 mil milhões de kwanzas declarado em existências, afectando também a confiabilidade dos custos das mercadorias vendidas e dos resultados não operacionais.
Apesar dessas ressalvas, a KPMG considera que, “excepto quanto aos possíveis efeitos” das questões mencionadas, as demonstrações financeiras apresentam, de forma fiel e transparente, a posição financeira, o desempenho e os fluxos de caixa da TAAG em conformidade com os princípios contabilísticos geralmente aceites em Angola.
Contudo, o relatório destaca uma incerteza material sobre a continuidade da empresa. Com passivo corrente a exceder o activo corrente em 181,1 mil milhões de kwanzas, a companhia opera num contexto de insolvência técnica, dependendo directamente do apoio financeiro do Estado accionista para manter as suas operações.
Segundo a auditora, estas condições enquadram-se nas disposições do artigo 37.º da Lei das Sociedades Comerciais, que prevê a dissolução de empresas em situação de perda total do capital social. Apesar da gravidade, a KPMG não modificou a sua opinião final sobre as contas, mantendo a distinção entre incerteza e impossibilidade factual.
É de salientar que a auditoria de 2024 foi realizada por uma nova entidade a KPMG foi contratada apenas em 23 de Outubro de 2024, substituindo o perito anterior, que em Abril de 2024 tinha emitido um parecer sem reservas (com ênfases) sobre as contas de 2023. Este contraste evidencia uma deterioração acentuada no espaço de um ano, agravada por deficiências nos controles internos e na gestão de inventários.
O relatório reitera que a responsabilidade pela preparação e divulgação das demonstrações financeiras compete ao órgão de gestão da TAAG, enquanto ao conselho fiscal cabe a supervisão do processo.
Fonte: Imparcial Press
