A concentração de poder económico num número reduzido de empresas voltou ao centro do debate público em Angola. O Grupo Carrinho consolidou a sua presença simultaneamente na agro-indústria, na logística estratégica, em contratos públicos e no sector bancário uma trajectória que, segundo especialistas, pode representar um risco estrutural para a economia nacional.

O momento simbólico da ascensão do grupo ocorreu em 2019 com a inauguração do Complexo Industrial da Catumbela pelo Presidente João Lourenço, projecto apresentado como marco da diversificação económica.

Em Dezembro de 2024, o então presidente norte-americano Joe Biden visitou as instalações do grupo em Benguela, no contexto da estratégia do Corredor do Lobito, reforçando a sua projecção internacional.
Paralelamente à expansão industrial, o grupo acumulou contratos estratégicos com o Estado, nomeadamente na gestão da Reserva Estratégica Alimentar (REA) e no abastecimento logístico de instituições sensíveis, como as Forças Armadas Angolanas.

Em 2021, no primeiro ano operacional da REA, o Estado investiu mais de 200 milhões de dólares no mecanismo. Entre 2021 e 2022, foram autorizados créditos suplementares adicionais que elevaram substancialmente o montante envolvido.

Relatos internos indicam que o operador privado concentrou praticamente toda a cadeia operacional — desde a indicação de fornecedores internacionais até à distribuição nacional. Em 2023, o contrato foi extinto por decisão presidencial, com anúncio de auditoria. Até hoje, não foi divulgado qualquer relatório público detalhado.

Especialistas em finanças públicas alertam que, quando operações desta dimensão não são acompanhadas de prestação de contas transparente, o risco deixa de ser apenas financeiro e passa a ser institucional.

A diversificação do Grupo Carrinho incluiu uma entrada decisiva no sector financeiro. Em 2021, tornou-se proprietário do Banco do Comércio e Indústria (BCI). Em 2024, a Autoridade Reguladora da Concorrência autorizou a operação que lhe permite assumir o controlo do Banco Keve, sujeita à aprovação do Banco Nacional de Angola.

A expansão não ficou por aí. Em 2025, através da sua subsidiária financeira Congolian, o grupo adquiriu 7,61% do capital social do Banco de Fomento Angola, uma das maiores e mais relevantes instituições bancárias do país. Embora essa participação não represente controlo maioritário, garante presença na estrutura accionista de um dos pilares do sistema financeiro nacional.

Caso se consolidem todas estas posições, o grupo passa a estar simultaneamente presente na produção alimentar, na logística estratégica e em três instituições bancárias relevantes. Economistas ouvidos por esta reportagem alertam que a interligação entre sectores tão sensíveis pode gerar conflitos de interesse, reduzir a concorrência efectiva e aumentar o risco sistémico numa economia ainda em processo de consolidação regulatória.

Fontes do sector financeiro indicam ainda que o grupo está a desenvolver uma estrutura financeira com sede na Europa destinada a apoiar operações de financiamento relacionadas com o Estado angolano e projectos estratégicos. Os detalhes institucionais dessa entidade incluindo denominação formal, governação e enquadramento regulatório não foram divulgados publicamente.

Analistas consideram que esta nova dimensão internacional representa uma evolução significativa no posicionamento do grupo: de beneficiário de contratos públicos a potencial financiador indirecto do próprio Estado. Trata-se de um tema que, segundo fontes próximas do processo, “merecerá desenvolvimentos futuros”.

Ligações internacionais sob polémica

As relações empresariais internacionais do grupo também têm sido alvo de atenção.
São confirmadas ligações à Manty AG, sediada na Suíça e dirigida por Maurice Taylor. A Manty funciona como trading para importações alimentares associadas ao grupo, mas a estrutura exacta da relação não é publicamente conhecida.

Maurice Taylor foi identificado como “indivíduo associado” a Niels Troost no âmbito de investigações europeias relacionadas com o comércio de petróleo russo. Taylor contestou judicialmente essa menção e nega qualquer irregularidade.

Outra ligação envolve a Paramount Energy & Commodities, fundada por Troost, que participou com 70 milhões de dólares no investimento do complexo industrial inaugurado em 2019. Troost foi incluído na lista de sanções da União Europeia em 2024 por alegado envolvimento em operações ligadas ao comércio de energia russa acima do limite estabelecido por países ocidentais acusações que também contesta.

Não existem provas públicas de envolvimento directo do Grupo Carrinho em violações de regimes sancionatórios. Ainda assim, juristas sublinham que parcerias com entidades sob escrutínio internacional exigem elevados padrões de diligência e transparência.

Opacidade financeira e perguntas em aberto

Apesar da dimensão alcançada, o Grupo Carrinho não publica contas consolidadas auditadas acessíveis ao público. Não existem demonstrações financeiras detalhadas nem relatórios de gestão disponíveis para consulta pública.

Para especialistas em governação corporativa, a ausência de informação financeira auditada torna-se particularmente sensível quando a empresa acumula contratos públicos estratégicos, operações bancárias relevantes e agora estruturas internacionais de financiamento.

Um perigo estrutural?

A concentração económica não implica, por si só, irregularidade. Contudo, quando um único conglomerado acumula presença dominante em sectores estratégicos alimentação, logística estatal, banca e financiamento e mantém níveis reduzidos de transparência pública, o debate sobre risco estrutural torna-se inevitável.

O perigo da concentração económica reside menos na dimensão empresarial e mais na combinação entre poder económico, proximidade institucional e opacidade financeira.
E é precisamente essa combinação que coloca o Grupo Carrinho no centro de um dos debates mais sensíveis sobre o futuro económico de Angola.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *