O grupo israelita Mitrelli, sediado na Suíça, beneficiou recentemente de garantias soberanas no valor de 212 milhões USD (cerca de 168 milhões de francos suíços) para o financiamento de projetos em Angola e no Senegal. O apoio, canalizado através da agência pública suíça SERV, está a suscitar acesos debates na sociedade civil e na imprensa internacional. Em causa está a exposição de fundos públicos europeus a mercados com riscos políticos elevados e a crescente dependência de Angola face ao grupo, que já detém, indiretamente, cerca de 4% da dívida externa do país.

A viabilização destes projetos assenta no braço financeiro da agência SERV (Swiss Export Risk Insurance), uma entidade pública suíça que emite garantias para mitigar riscos de exportação que a banca privada habitualmente recusa. Segundo uma investigação recente do colectivo de jornalistas WAV e do semanário WOZ Die Wochenzeitung, este mecanismo protege a Mitrelli contra instabilidades governativas e falhas na prestação de contas em países com baixa notação de crédito.

Embora a SERV se financie através de prémios e taxas, o Estado suíço atua como o garante de última instância. Em caso de incumprimento ou prejuízo, os contribuintes da Confederação Suíça assumem o risco financeiro, um modelo desenhado para incentivar a exportação de empresas sediadas em território helvético.

O peso da Mitrelli na governação de João Lourenço

Em Luanda, a Mitrelli consolidou-se como uma das entidades mais dinâmicas na execução de obras públicas sob o consulado do Presidente João Lourenço. O peso do grupo na economia nacional é evidente: através do seu braço financeiro, o grupo LR, a organização controla uma fatia considerável da dívida externa angolana.

Especialistas e membros da sociedade civil questionam a falta de concursos públicos abrangentes e a opacidade em torno de contratos que, embora tragam infraestruturas, elevam o endividamento do Estado em condições de risco.

A escolha de Frauenfeld, na Suíça, para a sede oficial do grupo não é vista apenas como uma decisão logística, mas estratégica. Ao operar a partir de um dos centros financeiros mais sofisticados do mundo, a Mitrelli afasta-se da imagem de risco associada às suas operações em África, beneficiando da “chancela de competência” suíça para atrair financiadores internacionais e garantir as coberturas da SERV.

Fonte: Jornal Expansão

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