O Conselho Fiscal da Aldeia Nova S.A. rejeitou as contas de 2025 apresentadas pela administração e acusa os gestores de mascarar indicadores financeiros, transformando um prejuízo de 212,44 milhões de kwanzas em lucros de cerca de 50 milhões de kwanzas. O parecer, que também aponta capital próprio negativo de 180,79 milhões de kwanzas (contra os 510 milhões reportados), foi acompanhado pela reprovação do IGAPE, accionista com 23% do capital. A situação afecta directamente a transparência de um projecto agroindustrial no Cuanza Sul que envolve recursos públicos e centenas de famílias de Waco Cungo.
O relatório de gestão, assinado pelo director-geral adjunto Hermenegildo Francisco, foi considerado “insuficiente” pelo órgão de fiscalização, que sublinha não permitir compreender a real gestão da empresa ao longo do ano. Inconsistências foram detectadas nas rubricas “Contas a receber” e “Outros activos correntes”, além da ausência do relatório de gestão completo e do parecer do auditor independente, exigidos por lei.
O parecer do Conselho Fiscal foi assinado apenas pela vogal Joana Palhares. O outro vogal, Tarcísio Baptista, não o assinou. O documento condiciona a aprovação das contas à resolução das inconformidades e à apresentação dos documentos em falta.
Posição do IGAPE e situação accionista
Em resposta ao Expansão, o Instituto de Gestão de Activos e Participações do Estado (IGAPE) confirmou que “foram identificadas matérias que carecem de esclarecimentos e regularizações”, algumas delas também objecto de observações do Conselho Fiscal e de reservas do auditor externo. Por isso, o IGAPE decidiu não aprovar as contas nas condições apresentadas, até que as situações sejam regularizadas.
A Diembo, do Grupo Mitrelli, que detém 41% do capital, está a finalizar o processo de aquisição dos 59% ainda em posse do Estado. A empresa, criada para gerir o projecto Aldeia Nova, tem um histórico marcado por dificuldades financeiras e reservas sucessivas de auditores sobre procedimentos contabilísticos e fiscais.
Anunciado em 2003 e inaugurado oficialmente em 2005 pelo então Presidente José Eduardo dos Santos, o projecto Aldeia Nova, em Waco Cungo, Cuanza Sul, nasceu com o objectivo de reintegrar mais de 600 famílias de ex-militares e desmobilizados através da agroindústria e da produção de leite, carne e ovos. Representou um investimento público inicial de cerca de 70 milhões de dólares e pretendia revitalizar o antigo colonato da Cela.
Após maus resultados, a empresa foi refundada em 2011 como Sociedade Anónima, com a entrada de novos accionistas, incluindo o Grupo Mitrelli. Nos melhores períodos, algumas famílias chegaram a obter rendimentos mensais de 1.000 dólares, mas a realidade foi marcada por oscilações de produção, ameaças de falência e constantes reservas de auditores independentes sobre impostos, facturação e suporte documental de custos.
Actualmente, a Aldeia Nova produz essencialmente ovos, iogurtes e manteiga, longe das metas iniciais de milhões de litros de leite e toneladas de carne. A situação patrimonial das terras e imóveis permanece pouco clara para muitos dos beneficiários originais.
Fonte: Jornal Expansão
