Subida é mais acentuada ano mercado informal. Panificadores dizem estar a reduzir até 30 gramas no peso do pão para absorver o aumento dos custos.
Os preços de referência da farinha de trigo, no país, registaram aumentos de pelo menos 40% desde o início da segunda quinzena deste Setembro, situação tem pressionado também os preços na indústria da panificação.
Em algumas padarias, o aumento dos custos está a ser absorvido com a redução do peso do pão, enquanto produtores e industriais defendem medidas para diminuir a dependência do trigo importado.
Numa ronda realizada pelo Valor Económico em estabelecimentos comerciais de Luanda, o saco de farinha de 50 quilos vendido pela Angolissar passou de 25.500 para 31.500 kwanzas, um aumento de 23,5%. Já nos armazéns, o saco de 25 quilos passou de 12.500 para cerca de 15 mil kwanzas, embora tenham sido encontrados preços mínimos de 14.000 kwanzas.
No supermercado Arreiou, o saco de 25 quilos está a ser comercializado entre 14.800 e 15.500 kwanzas, contra os anteriores 12.500 kwanzas, o que representa um aumento de até 24%. Nos mercados informais, a subida é ainda mais acentuada. O quilograma de farinha de trigo passou de cerca de 500 para 700 kwanzas, uma variação de 40%.
A Associação dos Produtores de Farinha de Trigo de Angola atribui a subida ao aumento do preço internacional do trigo e ao agravamento dos custos logísticos, num contexto marcado pela instabilidade geopolítica e por constrangimentos no transporte marítimo.
O presidente da associação, César Rasgado, afirma que, entre Maio e Setembro, o preço internacional do grão de trigo aumentou cerca de 30%, tendo como referência os índices MATIF, na Europa, e CBOT, em Chicago.
Conforme nota, a instabilidade no Médio Oriente e os constrangimentos à circulação de navios no Mar Negro aumentaram os riscos e os custos do transporte marítimo. A subida do preço do petróleo, com o barril a ultrapassar os 100 dólares, terá contribuído igualmente para o agravamento dos custos logísticos.
“Desde Maio que andamos a tentar gerir essa situação, mas, como produtores, chegámos a um ponto em que era insusten-tável, pois estávamos a perder margem”, afirma César Rasgado.
O responsável explica que o trigo representa cerca de 90% dos custos de produção da farinha, fazendo com que qualquer alteração no preço da matéria-prima tenha impacto directo no produto final.
Apesar do aumento de cerca de 30% no mercado internacional, garante que os produtores não repercutiram integralmente esse agravamento nos preços da farinha.
“Não estamos a aumentar o preço da farinha de trigo na mesma proporção dos 30%, estamos a ajustar numa margem que se adeque aos custos, até porque, no final do dia, também somos consumidores de pão”, afirma. Para César Rasgado, a dependência total do trigo importado deixa o país exposto às oscilações do mercado internacional. O aumento da produção nacional, defende, poderia reduzir essa vulnerabilidade, desde que o cereal produzido localmente apresentasse escala e qualidade suficientes para abastecer as moageiras.
PÃO MAIS PEQUENO
O aumento do preço da farinha já está a repercutir-se na indústria de panificação. Em vez de transferirem integralmente o aumento dos custos para o preço final, algumas padarias estão a reduzir o peso do pão.
O presidente da Associação das Indústrias de Panificação e Pastelaria de Angola (AIPPA), Gilberto Simão, considera que o problema é estrutural e está relacionado sobretudo com a ausên-cia de produção nacional de trigo em escala suficiente, e não com a capacidade instalada de trans-formação.
Angola dispõe de mais de 20 moageiras, mas continua a depen-der integralmente da importação do principal cereal utilizado na produção de farinha. Segundo Gilberto Simão, o país gasta anualmente cerca de 400 milhões de dólares na importação de trigo. “Antes da independência, 40% do trigo utilizado para produzir farinha era de cultivo local. Agora gastamos cerca de 400 milhões de dólares para importar grão de trigo”, lamenta.
O presidente da AIPPA defende que uma parte dos recursos actualmente destinados à importação seja canalizada para o financiamento da produção nacional.
A proposta passa pela criação de um fundo entre 80 e 100 milhões de dólares, equivalente a cerca de 20% da despesa anual com a importação do cereal, através do programa.
“TRANSFORMA AQUI”
O modelo defendido prevê a selec-ção, em cada província com potencial para o cultivo de trigo, de uma empresa âncora apoiada por cooperativas de serviços, além da instalação de pequenas e médias moageiras no interior do país.
A estratégia, segundo Gilberto Simão, poderia partir de experiências já existentes no Bié e no Huambo, onde dois empresá-rios associados da AIPPA produziram, em conjunto, cerca de 20 mil toneladas de trigo em 2025.
As necessidades nacionais são estimadas em 800 mil a 900 mil toneladas por ano. Com a multiplicação de produtores com capacidade semelhante, o responsável acredita ser possível elevar a produção nacional para cerca de 400 mil toneladas anuais e reduzir significativamente a dependência das importações.
PRODUÇÃO AINDA RESIDUAL
Os dados divulgados pelo Ministério da Agricultura e Floresta mostram, contudo, que a produção nacional continua muito abaixo das necessidades do mercado. Na campanha agrícola 2024/2025, Angola produzi 34.874 toneladas de trigo, volum equivalente a menos de 5% da necessidades anuais estimada.
pela AIPPA.
A diferença evidencia a dimen são do desafio para substitui parte relevante das importaçõe por produção nacional e reduzir exposição da indústria às oscila ções dos mercados internacionais
FINANCIAΜΕΝΤΟ À PRODUÇÃO
Para além do aumento da produ ção, a AIPPA defende a recuperação de um modelo de articulação entre agricultores e indústria através do qual as moageiras forneciam sementes, equipamento e outros meios de produção ao agricultores, recebendo posterior mente parte da colheita.
Gilberto Simão considera qu a produção de trigo em Angol enfrenta custos elevados tambén devido à insuficiência de infra-estruturas e de mecanismos d apoio à agricultura.
“É mais barato importar porque lá fora os governos subsidiam os agricultores. Aqui, se o agricultor passar por uma calamidade, como a seca, ninguém o ajuda”, afirma.
O responsável alerta que o actual aumento da farinha já está a ter efeitos sobre o produto final.
Em algumas unidades de produção, o peso do pão terá sido reduzido entre 20 e 30 gramas, como forma de preservar alguma mar-gem de rentabilidade sem aumentar imediatamente o preço ao consumidor.
Além do apoio à produção agrícola, a AIPPA defende a privatização dos entrepostos aduaneiros e a instalação destas estruturas em todas as capitais provinciais, com o objectivo de facilitar o abastecimento e reduzir constrangimentos à actividade dos empresários nacionais.
Para os agentes do sector, o actual aumento da farinha expõe uma fragilidade que vai além da indústria de panificação: a elevada dependência de um produto essencial importado, cuja factura e preço interno continuam condicionados pela evolução dos mercados internacionais.
Fonte: Valor Económico
