Hélder Caetano considera que a indústria alimentar no País está a bom ritmo apesar do condicionamento de matéria-prima nacional. Defende a aproximação dos empresários à banca para melhorar a relação de financiamento e olha para o sistema tributário como um filtro para as empresas e para o mercado.

Está ligado a um grupo que se dedica essencialmente à indústria alimentar. Que avaliação faz deste sector no País?

Neste momento, é um sector poderoso, forte, dinâmico, com provas dadas. Ou seja, quando vamos aos supermercados, vemos uma mancha de produto nacional incrível. E uma alteração radical que aconteceu em 10 anos, sensivelmente. E isto diz muito sobre a pujança industrial do país. Claro que há muito mais além do sector alimentar. A indústria não alimentar, a de higiene, por exemplo, fortíssima. A indústria de materiais de construção e outras. Portanto, existe um potencial industrial que está a funcionar, que está a acontecer.

Está a funcionar e a acontecer com importação de matéria-prima em muitos casos…

Muita matéria-prima está ainda a ser importada, mas com uma tendência grande de substituição dessa importação por produto nacional. Isto está a acontecer. É um processo gradual. No caso de matérias-primas que vêm da agricultura, é um processo mais lento e é algo que demora tempo. Estamos a sinalizar a agricultura de forma activa e forte, que estamos disponíveis a receber. Estamos já a receber alguma matéria-prima nacional. Mas isto é um processo gradual. Montar uma indústria é uma questão de ter fundos suficientes para o fazer.

Participam neste processo?

Estamos altamente envolvidos diariamente e motivados para sermos uma das empresas, um dos grupos, na vanguarda e na primeira linha desse processo. Compramos a terceiros. Por exemplo, todo o material de embalagem que usamos é nacional. Somos um dos maiores consumidores de material de embalagem do país. No caso dos grãos, óleos brutos e tudo o mais, também compramos a terceiros, mas são produtos da terra.

Diz que montar uma indústria exige fundos suficientes. Que tipos de fundos?

Anunciámos publicamente o nosso plano de investimentos 2026-2027, que orça basicamente em 350 milhões de dólares. Portanto, não é algo que se faça de forma simples. Não é algo barato. É algo que implica também muita coordenação, muito know-how . Know-how do próprio grupo, dos nossos fornecedores. Estes são os factores importantes para montar uma indústria. E, claro, um plano de negócios bem estruturado. E depois, o capital, o working capital , porque sem capital de giro não acontece a compra de matéria-prima. Trabalhamos com capital próprio e com suporte da banca, tanto nacional como internacional. E obviamente existem desafios, como em qualquer situação na vida.

Que tipo de desafios?

Temos uma atitude de os resolver, de colaborar com a banca, de entender quais são as necessidades da banca. Nós não chegamos à banca só a pedir. É o segredo da nossa atitude. Perguntamos o que é que eles precisam também. E desse equilíbrio entre as nossas necessidades e as necessidades da banca, temos conseguido parcerias de grande nível e muito eficientes. A banca não é apenas um fornecedor de serviços financeiros. A banca tem os seus próprios interesses. E é como uma relação de amizade. As relações de amizade são mútuas, têm dois sentidos.

De que forma conseguem o financiamento externo?

Por via da banca. Externamente temos também uma parceria muito forte com a Corporação Financeira Internacional (IFC), que é o braço para o sector privado do Grupo Banco Mundial. E temos apoio de bancos da praça internacional, como, por exemplo, o Deutsche Bank, que é um dos nomes mais sonantes da banca com quem trabalhamos.

A ligação com o Deutsche Bank é pela linha de financiamento de mil milhões de euros operada pelo Banco de Desenvolvimento de Angola (BDA)?

Também. Que de resto é um dos nossos componentes de financiamento neste projecto.

Sentem-se privilegiados por terem apoio da banca?

Não. Trabalhamos para termos o apoio da banca também. Fazemos por isso.

Em termos de indústria, disse que trabalham com a matéria-prima nacional. Pensam produzir?

Neste momento, queremos estabilizar a nossa actividade industrial, finalizar este panorama de investimentos que nos vai permitir processar todo o tipo de grãos vindos da terra. Oleaginosas e sementes, como o trigo, milho, arroz… Para já, queremos ser

offtakers (compradores) de grande escala. No futuro, quem sabe, poderemos ter também uma pegada agrícola.

De que forma?

Pelo menos ter parcerias muito fortes com produtores é inevitável. Isso tem de acontecer. Se seremos produtores ou não, o futuro dirá.

Que avaliação tem do produto feito em Angola?

O feito em Angola, o produto nacional é feito com qualidade. Os equipamentos no geral das indústrias que estão instaladas no país são indústrias completamente novas de última tecnologia. Estamos a falar de fábricas com menos de 6, 7 anos de idade. Muitas delas menos. Estamos a falar do último grito de tecnologia em termos de eficiência, de qualidade. Temos tudo para ter produtos de qualidade na mesa dos angolanos.

O produto nacional é altamente competitivo. E há vários exemplos. As massas alimentares são um grande exemplo. A farinha de trigo é um grande exemplo. Os óleos alimentares também são um exemplo. São produtos altamente competitivos. A situação no país é que o poder de compra deveria sofrer um

upgrade . Precisa sofrer um upgrade . Porque se nós equilibrarmos o preço dos produtos na prateleira e se fizermos um câmbio rápido para o dólar e compararmos com países vizinhos, internacionalmente temos produtos a um excelente preço.

Muito competitivos. E isso é garantido. É muito importante o consumo e a utilização do produto nacional porque está a criar um cluster económico. Uma dinâmica económica global. Se os produtores nacionais tiverem melhores resultados, crescem mais, empregam mais, geram mais valor para a economia, pagam mais impostos. Isso cria um circuito e a economia melhora. Quando estamos a comprar importado, estamos a exportar o nosso dinheiro, e a exportar o nosso poder de compra. Essa é a grande dicotomia entre exportar o nosso poder de compra ou deixar o nosso poder de compra no país, e fazer a economia funcionar na sua globalidade.

Em todos os aspectos. Serviços, produtos, agricultura. Ao promover a indústria nacional, por muito que ela arranque com produtos importados, ela está a sinalizar à agricultura que precisa de grãos, por exemplo. Ou precisa de óleos brutos, do dendém, por exemplo. E isto vai dinamizar a agricultura, vai criar um clima de positividade para a agricultura para que quem tem intenção de investir na agricultura ou quem já está nesse negócio, dê o salto e incrementa a sua produtividade. Incrementa a produção, produtos e a quantidade de terra que trabalha.

Mas, para isso, a indústria tem de fazer o seu caminho. Tem de ser, de certa forma, atractiva para quem consome. Acha que isto já está a ser conseguido no mercado?

Está. E a penetração do produto nacional fala por si. O selo feito em Angola é um selo que vale a pena ter em atenção. E a iniciativa tem muito mérito. Não só tem importância no país, como tem importância num contexto regional. Porque o selo feito em Angola vai parar a Kinshasa, Namíbia, Ponta Negra. Isto falando somente em destinos que estão aqui à nossa volta. Provavelmente vai mais longe. E queremos que assim aconteça. Isto dá tracção à economia, à imagem do país e dá tracção à indústria nacional

Se tivesse ou pudesse melhorar alguma coisa no sector industrial o que é que melhoraria?

A indústria está bem e recomenda-se. Precisa de matéria-prima que é fundamental. As políticas de apoio ao crescimento estão a ser implementadas. E, no geral, posso dizer que são bem implementadas. Sinal disso é uma indústria a crescer a dois dígitos ao ano. Isto significa que alguma coisa está bem feita, que as políticas estão correctas, por muito que possa haver dificuldades pontuais naquela ou nesta indústria, o que é absolutamente normal. Mas, no global, na visão de helicóptero da economia, na macroeconomia, as coisas estão a resultar.

Que dificuldades a indústria vive?

Precisamos que a agricultura venha ter connosco, que ganhe tracção, ganhe velocidade. Que perceba que tem na indústria parceiros sérios para que consigamos crescer juntos. No meio disso tudo quem vai ganhar é o consumidor. E o país, obviamente. O que tentaria mudar, e julgo que já há movimentos nesse sentido, é apoiar a indústria angolana a virar-se para o exterior. De forma a que nós importemos divisas. Isso é um ponto importante e estou em crer que é um movimento que já está a acontecer.

Nesta perspectiva, até onde a questão tributária contribui ou não para este escalar?

Tem havido saltos quânticos na forma como a AGT faz o seu controle, o seu trabalho. Ultimamente temos a facturação electrónica, que é um desafio para muita gente. Especialmente os pequenos e médios empresários. E mesmo nas grandes empresas a implementação não é fácil. É trabalhosa e tem os seus custos. Agora entende-se o porquê. É uma questão de controlo, e para a AGT ter a sua arrecadação bem feita ou devidamente feita. É claro que cria desafios, cria custos. E custos que têm de ser reflectidos em algum lado.

A sistema tributário está a asfixiar ou não as empresas?

A indústria que pode ser afectada por uma situação dessas é uma indústria que não está preparada para sobreviver às adversidades. Considero isso um filtro. Ou seja, com certeza que prejudicará algumas indústrias, especialmente de pequeno porte. Mas provavelmente serão indústrias que não estão preparadas para sobreviver a longo prazo. Porque neste momento vivemos uma situação de estabilidade. Não há factores de peso.

A tributação faz parte do processo de desenvolvimento da produção nacional?

Se uma estrutura está tão fragilizada que o movimento da AGT ou uma cobrança um bocadinho mais musculada, vamos falar assim, a põe em causa, é porque essa estrutura não está preparada. Isto olhando de uma forma macro para o assunto. Haverá casos individuais a serem tratados no seu devido espaço, mas olhando de uma forma macro, é essa a minha perspectiva.

Empreendedores, empresários e grupos têm de olhar para a tributação como um processo da própria sobrevivência das empresas?

Faz parte de todo o processo, e tem de estar nas contas o pagamento de impostos. Tem de ser uma prioridade absoluta de uma empresa, porque não estando com a situação regular, logo alguns dos mecanismos que estão à disposição são bloqueados e a vida da empresa fica muito difícil, para dizer o mínimo.

A informalidade tem um peso significativo na economia angolana. Até onde concorre com a desenvolvimento da indústria?

A informalidade não é algo que esteja directamente relacionada connosco. Vendemos formalmente tudo aquilo que produzimos. Se depois, numa segunda ou terceira linha, os produtos acabam por ir parar ao negócio informal, ao micro-negócio da mamã que faz ali a sua pequena venda à porta de casa, por exemplo, isso aí já é um fenómeno muito típico de pessoas com um poder de compra relativamente baixo, que precisam de alguns meios extra de subsistência. Mas na nossa dimensão não podemos de maneira nenhuma estar directamente ligados à economia informal. Não concorre connosco.

Fonte: Jornal Expansão 

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