A administração pública e as empresas estatais tinham em sua posse um total de 73.341 veículos no final de 2025. Em três anos, a compra de veículos já ultrapassa os 1.100 milhões USD. O aumento ocorre num ano de aperto orçamental e num país onde a viatura de serviço continua a ser sinal de estatuto na administração pública.
O Estado gastou no ano passado o equivalente a 751,9 milhões USD na compra de veículos, o que representa um aumento de 250% face ao montante gasto em 2024, ano em que a compra de viaturas para a administração pública custou ao Estado 215,5 milhões USD, de acordo com cálculos do Expansão com base na Conta Geral do Estado (CGE) de 2025.
Contas feitas, nos últimos três anos os órgãos do Estado, que vão desde o Governo central, governos provinciais e outras instituições públicas, gastaram 976,2 mil milhões Kz, equivalente a 1.116,7 milhões USD, convertidos à taxa de câmbio média de cada um dos anos.
No boletim estático anexo à CGE 2025, está identificado o valor que o Estado gastou na aquisição de Veículos de Tracção Mecânica, que além de viaturas automóveis incluem outro tipo de veículos. Em resposta a questões do Expansão sobre o assunto, o Ministério das Finanças indica, sem descriminar o tipo de viaturas adquiridos, que a rubrica Veículos de Tracção Mecânica integra veículos motorizados para o transporte de pessoas e bens utilizados pelas entidades públicas. “Tendo em conta as diferentes finalidades, incluem-se, em regra, automóveis ligeiros de passageiros, viaturas todo-o-terreno, carrinhas e veículos comerciais, autocarros e mini-autocarros, camiões, tractores, entre outros”.
Em relação às aquisições em 2025, indica que “foram adquiridos veículos com o objectivo de manter o normal funcionamento das instituições, entre os quais podemos destacar a aquisição de veículos protocolares para diferentes entidades, de meios técnicos rolantes e especializados para o serviço de emergências do sector da saúde, de veículos de transporte colectivo, de autocarros para o aumento da mobilidade pública, bem como de veículos pesados para a limpeza urbana”.
Por seu lado, a consulta à CGE e aos vários anexos não permite aferir em concreto que entidades compraram viaturas, bem como o número de viaturas por órgão e as verbas utilizadas. No entanto, algumas delas fazem pequenas referências, como é o caso do Conselho Superior da Magistratura Judicial, que menciona a “distribuição de meios rolantes” em 2025, nomeadamente “viaturas e motorizadas”. Também o Conselho Superior da Magistratura do Ministério Público faz uma referência semelhante: “Aquisição de viaturas para o apoio técnico e administrativo”.
Já no que diz respeito à actividade dos ministérios, apenas o dos Transportes faz referência à aquisição de veículos já que indica que em 2025 foram adquiridos e entregues 500 autocarros aos governos provinciais. O valor inscrito para o fornecimento de 500 autocarros foi de 49,9 mil milhões Kz, o que dá uma média de 99,9 milhões Kz por cada um.
O grosso dos valores e dos órgãos públicos não se sabe. No entanto, especialistas consideram que os 751,9 milhões USD gastos na compra de viaturas para a administração pública é uma amostra da má despesa pública do Governo e evidencia as suas prioridades.
“Não se entende como é que se gasta em um ano este valor em carros. Por aqui se pode ver que um dos problemas deste Governo são as suas prioridades e a má despesa pública”, disse o economista Nelson Miguel. O especialista entende ainda que a opção por compra de viaturas topo de gama, que tem sido uma prática recorrente da administração pública, penaliza os cofres públicos, que actualmente não vivem boa saúde financeira.
“Gasta-se muito em carros porque no País existe o síndrome do luxo. Qualquer servidor público assim que é nomeado, uma das primeiras acções é comprar um carro topo de gama, e gastam-se milhões de dólares nestas compras. Este é um problema que começa no topo e acaba na base. Ouvimos regularmente esses mesmos dirigentes a dizerem que o País não tem dinheiro, a endividarem Angola, mas ninguém abdica destes luxos”, disse.
A atribuição de viaturas de topo às administrações dos órgãos públicos é uma prática tão antiga em Angola, que é encarada, até, como um qualificador social no País. Ao longo dos anos, têm sido recorrentes notícias sobre compra de viaturas que chegam a Angola por preços bastante superiores àqueles a que são vendidos lá fora.
O consultor Silva Miguel entende que uma das formas de reduzir os custos com a compra de viaturas para administração pública deve passar pela criação de legislação que regule um valor máximo por viatura em função do cargo ou finalidade. “Sem legislação é quase impossível acabar com isso. Já ouvimos inclusive a ministra das Finanças a dizer que a compra de carros seria limitada, que tem que melhorar a despesa pública, mas ninguém cumpre. Inclusive o próprio Ministério das Finanças também tem esta prática. Por isso, é fundamental que haja uma legislação com regras para aquisição e atribuição de viaturas a funcionários e órgãos do Estado. Há servidores públicos com viaturas milionárias nas suas residências, atribuídas pelo Estado”, avançou.
Frota de mais de 73 mil viaturas
A administração pública e as empresas estatais tinham em sua posse um total de 73.341 veículos no final de 2025, o que representa um aumento de 1.871 unidades face aos registados em 2024, de acordo com cálculos do Expansão com base na Conta Geral do Estado (CGE) daquele ano. Há que ter em conta, que apesar das compras, também se verificaram abates de veículos, mais concretamente 340.
Destes veículos, 14.041 estavam entregues ao sector empresarial público, 1.416 a missões angolanas no exterior e os restantes estavam divididos entre governo central, ministérios e governos provinciais.
A CGE não indica que tipo de veículos estão inventariados, e embora muitos devam ser viaturas ligados a serviço, na administração pública são centenas de cargos com direito a carros de luxo com preços exorbitantes. Numa análise feita pelo Expansão em 2023, com base no estatuto orgânico das instituições do Estado, chegou-se à conclusão que existem na administração pública pelo menos 765 carros de luxo com preços que vão desde os 90 a 290 mil USD cada, atribuídos a servidores públicos entre ministros, vice-ministros, deputados, juízes, governadores províncias e seus adjuntos, presidentes de conselhos de administração de empresas do Sector Empresarial Público (SEP), e ainda chefias com cargos de direcção.
Mas estes números serão bastante superiores já que não foi possível contabilizar as viaturas de luxo que estão na Presidência da República (entre conselheiros, serviços de apoio e até as viaturas a cargo do Presidente) ou nos polícias e militares.
Fonte: Jornal Expansão
